Pessoas ou monstros?

Andamos todos muito chocados com a menina assassinada pelo pai com a suposta ajuda da madrasta. E todos gritam, pulmões cheios de ar, que aquelas pessoas são na verdade monstros. Talvez nos choque a frieza daquele pai que, sem dó nem piedade, roubou a Vida a uma criança, sua filha. Mas estamos todos fechados em casa neste confinamento com um ar entediado e até com uma sofrência exagerada pelo luxo dos nossos dias completos e repletos de comida e conforto. E quando acabar? Pois claro está que continuaremos todos a viver com o mesmo isolamento. Cada um vai à sua Vida, cada qual cuida de si da melhor maneira possível e já ninguém se vai lembrar das meninas que por aí vão ser assassinadas no descuido coletivo. Fechamos a porta de casa, com fé de que isso nos proteja do mundo exterior, e é a TV que nos traz essas histórias de horror. Essas histórias que não são histórias longínquas de reinos mas sim a Vida e Morte de gente como nós. E a porta que nos tranca e isola deixa de ser suficientemente forte para nos proteger do Mundo lá fora. Sentimos a verdadeira revolta. Há os que esquecem tão depressa como a imagem que deixa de estar à sua frente, exposta na TV, e há os que lamentam o falhanço da Humanidade. Como é possível que Pais matem os próprios filhos? Como é possível que sangue do seu sangue seja derramado por coisas pequenas? Mas este assassínio exposto talvez seja bem mais raro que o assassínio lento e constringente que a má parentalidade exerce assobiando para o lado. E nós assistimos a esses péssimos pais, que usam e abusam da sua condição de poder psicológico para destruir toda a possibilidade de os filhos se soltarem e serem felizes. Hoje muito se fala de filhos que vivem com os pais e não conseguem ter uma vida independente financeiramente mas pouco se discute quantos desses pais realmente permitem e querem que isso aconteça. Eu vou assistindo de camarote a relações invertidas e doentias, pouco saudáveis, com as pessoas a se usarem e a serem usadas sem qualquer necessidade real. E é tão triste, que no cúmulo, só se contactam por estranha conveniência. É assim como pegar no chapéu de chuva apenas quando chove embora ele esteja sempre ali, à entrada da casa. Nos últimos anos, por inerência da própria Vida, posição profissional e ate pessoal, sinto-me muitas vezes assim como esse chapéu que está, esteve e sempre estará ali, na entrada daquela casa, posto num canto, à espera que chova. E é difícil aceitar isso consciente de que não há outra saída para o problema. Ser social é isso. E é muito mais social quem é capaz de usar dessa arma de estar sempre no Sol tendo vários chapéus para os dias de chuva. E é na violência destes casos que não são de TV, mas sim de Vida, que revemos o sítio onde estamos e onde queremos ficar. Queremos ficar na entrada da casa, disponíveis e ignorados, ou será a altura de virar a mesa e ser também o social? Pois é da minha natureza não me conformar e ficar inquieto com tudo o que não me agrada sem nunca abrir mão da minha essência. Não serei social, e vou permanecer em isolamento voluntário pelo resto da minha Vida enquanto cumpro as minhas promessas até ao ultimo sopro de Vida que restar em mim. Não conseguirei mudar muita coisa, mas repugna-me ter de aceitar que todos estejam tão chocados com a morte da menina ás mãos do Pai quando todos os dias se deixam matar ou matam por tão pouco. Esse não-pai merece uma execução imediata, mas em vez de nos mostrarmos presos à ideia de tentar debater o que já não tem solução; o melhor é aproveitar a oportunidade para pensar o Mundo e ver no que ele se está a tornar: uma merda! Se cada um fizesse a sua parte, estou certo que seríamos capazes de salvar muitas meninas e meninos. Eu fui salvo e sei que já salvei. Se ao menos a corrente não se quebrasse! Infelizmente muitos dos que salvei continuam a condenar-se e a entregar-se ao básico…

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