Onde o coração não bate

Enquanto a Vida procura alguma normalidade no meio do caos, somos confrontados com a necessidade de mudar irreversivelmente. Penso que todos conseguimos perceber que nada poderia voltar a ser como antes. Mas vai voltar a ser tudo exatamente como antes, mais depressa do que julgamos. Infelizmente o meu pessimismo pela Humanidade leva-me a assumir esta postura definitiva. Não sei em que momento da História nos tornámos egoístas ao ponto em que estamos hoje. Não sei se alguma vez deixámos de o ser, mas houve uma época em que se disfarçava mais que hoje. Batem-se as palmas, fazem-se movimentos nas redes sociais, pedem-se donativos e todos somos solidários e preocupados. A verdadeira questão é: somos porque tem de ser e impera o medo ou está em nós essa vontade? Acho que a maioria tem medo deste novo contexto e, roubando o exemplo que o Herman José deu numa entrevista que vi há dias, é como ter um susto e dar entrada num Hospital. Rezamos a todos os santos, fazemos promessas e ate juramos que se a equipa médica nos salvar iremos fazer voluntariado ou estar com eles todas as semanas. O sentimento de agradecimento é puro e genuíno quando vem a salvação. É verdadeiro aquele entusiasmo e aquela alegria. Se não fossem aquelas pessoas, num outro tempo e em outro espaço teríamos morrido. As primeiras semanas passam rápidas com o acelerar da Vida e a alegria triunfante dá lugar ao banal. E sem pensar voltamos ao mesmo e esquecemos até o nome do médico, e que havia uma enfermeira e já nem sabemos se fomos a pé ou de ambulância. O que aquela experiencia de quase morte afinal demonstra é que a Vida tem um prazo de validade e nós vivemos centrados nas nossas necessidades. Será assim com o Covid-19 e após o Covid-19. Haverá o regresso à normalidade e quem tem um espírito livre e honesto continuará a aprimorar essas características belas. Quem não as tem manterá a mesma postura vazia e oca. Não prevejo que muitos possam passar de mesquinhos a gente boa. Lamento mas o Mundo não vai mudar para melhor. Sinto ate calafrios quando o pior dos pensamentos me ocorre e me diz que as pessoas vão ter ainda mais vontade de se centrar nelas mesmas e evitar a partilha de recursos e de dinheiro. A crise vai alimentar e cavar ainda mais o fosso que já se estabeleceu entre esses dois grupos de pessoas. E eu não quero assistir a isso. Permanecerei atento e no mesmo isolamento social que antes, esse mesmo que durante anos levou a que me apelidassem de anti-social. Essa ofensa dita, e tantas vezes repetida numa tentativa de me magoar e humilhar, veio agora expor que ás vezes essa é a única arma contra os grandes males. Chegou o Covid-19 e o que tivemos de fazer? Isolamento social, pois claro. Ás vezes nós sentimos demasiados vírus purulentos e contagiantes à nossa volta e a única arma para nos defendermos é o isolamento social. Eu quero manter-me são e saudável até morrer. Mesmo quando o corpo falhar quero ter a certeza de que permaneço inocente das coisas que se fazem no lugar mais escuro da alma, onde o coração não bate.

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