“Um Ponto Negro”

Sou caseiro. Gosto de ficar em casa e sinto-me em casa. A quarentena só me traz o confinamento a sensações que não gostaria de ter aqui, em casa. Há uns meses que não me tenho sentido em mim. Aprecio-me sem gostar de me observar, e sem ver o alcance dos olhos que se recolhem a um mundo pequeno que há muito deixou de ser meu. Sinto-me incapaz e inútil, sem o ser. E sei bem que nunca o fui, não sou e nunca serei. E disto não tenho saído nos últimos meses. E este período de isolamento social não me tem feito bem, nem à casa, nem ao possível caso em que a minha mão se soltou sem querer, de um objectivo que tanto tardou que nunca chegou a concretizar-se. Estou estranhamente sem energia há tempo demais, como se a expectativa me ganhasse a guerra sobre o real. É por isso urgente vomitar este desconforto e impedir que se instale tempo suficiente para passar a fazer parte de mim. Eu engoli coisas a mais, guardei cá dentro fúrias, excessos e tempestades violentas que ameaçaram afastar alguma pureza que ainda resta. O riso infantil e inocente não pode dar lugar a uma histeria concertada sem conserto. O tempo acinzentou-se, os livros cansam de aborrecimento a minha pouca atenção, e só me resta a música para alegrar os meus ouvidos. E a companhia. Seja aqui, na China, nos USA, em África, ou em todos os cantos e lugares da Europa e do Mundo Imaginário e real que ainda não conheci. Não conseguiria quarentena sem a companhia mais que perfeita de um tempo pretérito que nos enche de esperança e de luz. Não troco as minhas angústias mais profundas quando acompanhado pelo riso falso de um divertimento passageiro. As roupas sujas, é aqui em casa que se lavam, desinfetam e se armazenam para escolher e deitar ao lixo depois de gastas ou desnecessárias. A limpeza de alma tem de ser acompanhada pelo asseio higiénico de deitar fora tudo o que nos faz mal. Seja material ou psicológico. É preciso aprender a deixar de lamentar o que vamos perdendo pelo caminho, isso é só um livramento de más energias e más influências. A vida é feita de ganhos e perdas. E todos os dias, sentado ao computador, sinto uma alegria imensa de ganhar o respeito dos que admiro, e o ódio dos que me invejam. Nunca quis manter por perto possíveis inimigos. Espero que os ventos os entreguem num bom lugar, longe de mim, onde possam receber tudo o que merecem. As coroas, o ouro, os títulos e a ascensão social dessas pessoas nunca me incomodou e nunca incomodará. Desejo-lhes um abraço sincero e o conforto da alma num “amo-te” verdadeiro como eu e poucos sabemos dizer. Sei o meu lugar. Exato e cheio de coordenadas e direções. Não me perco mesmo quando o cansaço me traz esta sensação estranha de me ver observando, sem saber o que prende a minha atenção. Nunca fui de ficar parado à espera que algo se resolva ou a minha vida circule na velocidade normal de um dia-a-dia que vai e vem, sem trazer boa sorte. É por isso Tempo de fazer uma boa reza e acender a vela do desejo, ambição positiva que ninguém nunca vai roubar de mim. Desejo muito a Vida, passar por Ela como quem agradece um beijo inesquecível e que jamais se repetirá. Olho em frente e finalmente consigo ver o que me retinha a atenção. Era apenas um ponto negro, um ponto final. E se final é, não há nada mais a dizer senão começar a frase seguinte. E é bonita a frase seguinte. Dilatou o coração e onde estava sofrimento passou a habitar todo aquele Amor que tanto imaginou, e que não tardou, porque afinal, mesmo sem sair de casa, sempre chegamos onde nos esperam …

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