Ensaio sobre uma carta ao pai Natal em 2016

Querido Pai Natal,

Este ano quase não lhe escrevi uma carta. Primeiro porque tenho estado de cama. Depois tem sido um cansaço de alma que ninguém compreende. Nem eu. Depois, tem havido um enorme desânimo. Acho que deixei de acreditar em sonhos e estou com um medo enorme de me estar a transformar numa pessoa má. É que à minha volta deixou de haver esperança. Caiu sobre mim a nuvem da dúvida eterna e inequívoca de que as pessoas se usam e se abusam de um modo que me parece sujo e desumano, mas que para todos é normal. Cheguei à conclusão que não sirvo para o convívio social nem para a invocação em vão de sentimentos. Não sei fingir. Não sei mentir. Não sei guardar segredos. E nunca fui capaz de prejudicar conscientemente alguém. Nunca promovi ódios ou deixei de ser sincero numa opinião com medo de magoar. Mas todas as minhas opiniões, todas as minhas frases e todas as minhas mensagens, se alguém sente como uma bofetada, é porque há razão nelas. Os ódios que me têm são, na maioria das vezes, motivados pela minha necessidade de expor a Verdade. Por mais cruel que seja, por mais sombria e por mais dolorosa que possa ser. É neste estado de desilusão, cansaço e derrota que lhe escrevo esta carta. Descrente de que me traga algo de novo, ou que o mundo mude. Descrente de que amanhã ao acordar ouça cantar um hino de leveza e castidade. O Mundo tornou-se um lugar cada vez mais estranho e sombrio para mim. Não gosto das histórias que ouço. Odeio os dramas por que me obrigam a passar. Não sinto qualquer vontade de ser altruísta. A minha inocência tem sido destruída diariamente, numa linha contínua, sem que consiga estagnar a dor de a ver ir… Que pena que o Mundo assim seja. Que pena que a destruição da Alma e o vício do corpo leve a melhor sobre o que realmente importa. Tenho muito medo de me tornar numa pessoa pior depois das privações dos últimos 18 meses. Da doença ás mortes, passando pelas traições e pela ingratidão, tudo me tem custado muito a suportar. Coisas de merda têm acontecido vezes demais a gente boa, e gente de merda tem-se aproveitado demais de gente boa. E isto é um ciclo que vejo repetir-se vezes demais. Entendo por isso que devo apenas pedir neste Natal que cada um tenha o que merece. E que o Mundo traga justiça. Que eu possa ver um significado positivo nas coisas que acontecem, mesmo quando tudo me parece um exagero de alma sebosa. Uma gordura desnecessária numa vida que se quer fina. E peço pelos meus. Somos de uma estirpe em vias de extinção. Não fosse o cansaço, e hoje estaria a anos luz deste pedido. Mas querido Pai Natal, ando cansado. Muito cansado. Preciso de um isolamento qualquer, numa superfície longínqua onde, sem febre, poderia delirar mergulhado nos meus sonhos. Nos nossos sonhos. O que sinto é uma injustiça social, humana e pessoal, que ultrapassa os meus piores medos. Há monstros que habitam cá dentro e voam cada vez mais longe. E de todos, há um que sempre paira em mim, e que não sai. Estou cansado de um Mundo onde a inocência é um defeito, a bondade uma estupidez e o Amor algo secundário. Estou muito preocupado com o rumo que as coisas levam. Não me apetece interagir, conversar ou estar com pessoas. Vivo fechado e impaciente, num desassossego constante. Trabalho por prazer. Saio pouco e vivo lendo, escrevendo e convivendo pouco. É que as pessoas desiludem-me. E parecem não ouvir quando lhes digo que uma parede se aproxima. Como se podem realizar num futuro sem realização? Querido Pai Natal, peço um Mundo mais justo e um cérebro cheio de emoções para todos. É que sem sentir, não interessa viver. Há por aí demasiadas almas sebosas… Dai-lhes finura e leveza para compreenderem o mal que fazem…. E porque Johnny Hooker é luxo: https://www.youtube.com/watch?v=89F26mlQ6HQ

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