Ensaio sobre um dia de sol

Se esta não é a derradeira noite, o dia vai raiar. E o seguinte e o outro, e o seguinte. Não há causa maior que Viver consciente de que se faz o que se deve, por mais que doa, por mais que custe. O que o ódio que nos têm entrega, o olhar não nega. E está tudo dito. Mas de ódios não se faz a minha vida. No dia em que o Mal que me desejam me definir, morri para o mundo. Não permitirei jamais que isso fiquei cá dentro. As balas não fazem ricochete. Ficam agarradas ao corpo, deixam marcas, mas não me mudam. Se não me matam, é porque não é suposto. Abrandam o meu passo, desviam a minha rota. Levam-me ao chão, dorido e indisposto. Resta-me só levantar, sabendo que alguns atiradores furtivos espreitam em cada canto. A sua vontade de me acertar é tanta, que já não adianta me esconder. Não adianta sequer negar que existo, rejeitar a atenção, algum talento ou prémio. Não quero o destaque que me serve de condenação. Quero passar despercebido. Quero acordar com a luz no quarto. Ouvir os pássaros e sentir o cheiro do café… Eu acredito nas minhas mais feias imperfeições. Elas existem e definem-me. E se lhes toco tantas vezes, é para não as esquecer. Pena é que, quanto mais me entrego ás pessoas, menos recebo. Sou motivo de gozo, mas ser palhaço é uma pele que me assenta bem. Não me importo que se riam e se sintam felizes. Não sinto que perca nada com esses sorrisos… Ando numa fase muito negra. Maldito 2015 que me persegue e não larga. Talvez seja do ar, talvez do tempo, talvez seja só eu. Trago em mim um sentimento de perda enorme. Tentei um dia ser o mais adorado dos filhos, e sinto que nunca conseguirei. Tentei ser o melhor dos amigos, e sinto que desiludi. Tentei ser o melhor dos amantes, e sinto que sufoco. Deixei de tentar, e sinto que tudo vou perdendo… E quando o Mal circula por perto, sinto uma vontade imensa de congelar. Mas em vez de gelar, o sangue pulsa com mais força, o calor espalha-se e queima. Sofro mais. E cada vez é mais difícil. Os anos foram diminuindo a minha resistência. Vem uma saudade da adolescência, decidida, madura, livre, arriscada, louca, inconsequente. Impensada e impensável. Deus chegou a duvidar do meu futuro. Eu tinha certezas de insucesso, mas ia crescendo. Hoje cheguei a algures, e não consigo sair deste lamaçal de perda… Mas se esta não for a derradeira noite, o dia vai raiar. E não me arrasto sem objectivos ou semeando o mal. Acordo com dor de cabeça, triste e aborrecido. E ainda mais fico se o deixo transparecer a terceiros. Que culpa têm dos meus próprios erros e da minha incapacidade de superação? Entristece-me que não consiga estar no meu melhor para quem merece. Mas se esta não for a derradeira noite, amanhã o dia vai raiar. E eu acredito que em algum lugar vou conseguir ter força para continuar a trilhar um caminho inseguro e imperfeito. Tou habituado a ser o problemático e o mau da fita… esquecem é que quem causa os problemas é que é problemático, e o mau da fita tem poucos princípios. Como tal, não tem nada a ver comigo… Os dias têm passado sem inspiração e com pouca capacidade de trabalho. Mas tenho a certeza de que se esta não for a derradeira noite, amanhã o dia vai raiar. Espero que seja um dia de sol…

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