Ensaio sobre um pai que deixou de estar

O meu pai deixou de estar. Simplesmente cheguei a casa na segunda-feira passada e notei a sua ausência. Enquanto tratava de assuntos importantes, chegou a notícia. O telefone de casa recusou tocar. Estávamos todos em casa, em volta da mesa de tantos jantares, mas ninguém ouviu. Foram tantos os toques, tamanha a insistência, que a bateria terminou. Pudesse a notícia não se fazer sentir ou a morte evitar-se. Mas nada se faz ao nosso próprio jeito. A minha irmã mais velha espalhou a notícia: acabou-se. Pareceu um pressentimento estar em casa dos meus pais. Ironia do destino, dez minutos antes jurava a pés juntos: o meu pai não está morto. Foi uma diferença de minutos, uma perda de convicção, uma hesitação mais prolongada e a dúvida fez-se certeza. O meu pai caiu. Ele que no dia anterior jurou sentir-se tramado, derrotado pelo destino e certo de que o fim estava ali. Lúcido até ao fim, sem esperança e totalmente dependente apenas nos ultimos dias. Resistiu mais do que todos os prognósticos vaticinavam. Mas terminou. Como todas as histórias. Não interessa a fé, a convicção pessoal ou até a memória. Simplesmente deixou de estar. E como se não bastasse, o funeral foi de uma sensação de estranheza que ninguém compreenderá. Hoje ao rever algumas fotografias antigas, recuei a um tempo em que o meu irmão mais velho era o acontecimento mais esperado da casa. As suas visitas eram sinónimo de alegria e entusiasmo. Foram sendo depois de tal modo espaçadas que nos últimos 12 anos ninguém o viu. Regressou, qual filho pródigo e dedicado, para se sentar ao lado da viúva num banho de lágrimas. Não cumprimentou ninguém. Não trocou uma palavra com ninguém. Apenas se colocou ali, ao lado da mãe. Chorou as lágrimas que ninguém entendeu, viveu a perda que não viu ou sentiu. É muito fácil chorar quando não se é nada, é muito cruel e trabalhoso ser filho, pai, amante, marido ou simplesmente ser. Ele não foi e por isso quis parecer. Visto de longe até pareceu ser o que mais sofreu. Visto de perto foi apenas o abutre que apareceu na podridão da carne, sem sentir o sopro da Vida… Não guardo mágoas ou rancores. Ficou ali, para sempre, a marca de quem não presta e vive de aparências. Eu quero manter-me no sossego da minha consciência, sendo um irmão cauteloso, um bom filho e um Ser Humano exemplar. Quero senti-lo cá dentro. E nunca por fora… O meu pai deixou de estar. Infelizmente não tenho muitos bons momentos para recordar. O fim não foi bonito, nem aconselhável. E perdi o meu pai. Tive finalmente a consciência que nunca lhe perdoarei todos os abandonos. Este foi mais um, e definitivo. Fiquei orfão de pai, mas acima de tudo fiquei entristecido pelo que poderia ter sido a nossa relação e não chegou nunca a ser. Nos últimos anos apareci mais. Estive mais vezes sentado ao seu lado, mas nunca trocámos palavras. Sei, por terceiros, que ele me considerava um Grande Homem. Mas nunca me disse. Também nunca lhe disse que jamais lhe perdoarei todo o sofrimento desnecessário, toda a violência e a maldade. Mas também não é preciso. Nada disso interessa agora. Ele não era um Grande Homem. Mas no fundo devo-lhe tudo: a minha Vida. E se a sua Vida não teve grande propósito aparentemente, eu pergunto: quantas pessoas conseguem fazer 6 filhos, criar mais 2 sobrinhos e apenas 1 filho, o mais velho, criado por outrém, é um nojo de pessoa? E mesmo esse é também bem sucedido pessoal e profissionalmente. O meu pai foi um monstro à sua maneira, mas sem saber aproximou-nos mais e fez-nos mais independentes e capazes. Deixou-nos traumas que morrerão connosco. Tinha traumas, até de guerra, que morreram com ele. O meu pai acabou-se e hoje, uma semana depois, numa insónia cheia de tristeza, compreendo que não lhe perdoo porque na minha inocência sempre o amei e nunca me senti amado… Infelizmente essa é a história da minha vida: amo muita gente mas poucos retribuem com a mesma intensidade. E eu sofro no silêncio das horas difíceis, quando o relógio dos minutos demora a passar e o sono não vem. É bom não ter consciência. É  bom não pensar. Mas melhor ainda é Sentir. Diz a História que já existiu quem caminhasse sobre a água, mas ninguém se atreve a fazê-lo quando ondas se levantam. As águas estão agitadas, mas mesmo enjoado não páro de tentar. O meu pai deixou de estar. Mas eu ainda agora comecei. É tempo de lamber feridas, deixar cicatrizar. É apenas mais uma. Quem me dera que fosse física e se juntasse ás dezenas que trago no corpo. O meu pai deixou de estar. Apagou-se. É a lei da Vida e da morte. Ninguém escapa, mesmo que aprenda a caminhar sobre as ondas!

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