Ensaio sobre a vulnerabilidade

A ausência é sempre um sinal de qualquer coisa. Muitas vezes indica algo bom, outras algo mau. Mas no fim do dia, o que realmente interessa, é saber onde estamos e porquê. Mas não podemos perder demasiado tempo a tentar perceber o que não pode ser compreendido. A raça humana será a pior de todas as raças. Canibais, sádicos, torturadores da sua própria espécie. E o pior é que existe a possibilidade mais do que real de compreendermos tudo o que fazemos e tudo o que nos é feito. O que me conduz á loucura é a incapacidade total de perceber que sentimentos e que vontades conduzem as pessoas que se aproveitam da vulnerabilidade dos outros. A inveja? A crueldade? A soberba? A maldade? Um misto? É assim como ver um assaltante atacar uma velhinha indefesa. Fazemos algo para ajudar. Mas o que fazer quando somos nós os vulneráveis? Como nos podemos defender dos saqueadores de futuro e sorrisos? Talvez não seja possível fazer nada. Entregamos o ouro, as jóias e tudo o que temos de valor. Se quiserem podem despir-nos, violar-nos e até matar-nos. Mas a essência e o brilho, esse não se entrega jamais. Há quem nasça para brilhar, há quem nasça para ofuscar. É na vulnerabilidade que se encontram os verdadeiros amigos, as pessoas que nos inspiram confiança e nos asseguram segurança. É aí que que se recebem os abraços mais calorosos e a bofetadas mais doridas… O dia de hoje amanheceu estranho para mim. E as notícias más chegaram. Mostrei-me vulnerável, tive as demonstrações que no fundo já esperava. Mas tenho dentro de mim uma grande esperança, do tamanho da minha própria Vida. É um sentimento infantil, talvez trazido pela criança que não pude ser, que me acompanha. Estou sempre á espera do melhor das pessoas só porque dou o melhor de mim. Não chega, é certo, mas é o que consigo. E se sei que estou vulnerável, também sei que se abre a fresta por onde entram demónios e tenho de escancarar a porta para os expulsar. O meu pai vive os últimos dias da sua existência. É certo. O diagnóstico tem, há muito tempo, a condenação. Não é fácil ver a fase final de alguém com cancro. Os assuntos por resolver vão permanecer selados e misteriosamente perdidos num tempo que não mais se repetirá. O tempo é agora. É hoje. Amanhã pode ser tarde… Estou vulnerável por sentir que posso perder a criança que não fui e a última oportunidade de ouvir do meu pai um único elogio ou palavra de incentivo. Hoje não me interessa a violência, as discussões, o álcool ou o choro das crianças no quarto. O fim está por aí… por dias… quem sabe se por horas. Deixei de acreditar em milagres há muitos anos. Ele também já não acreditará. Só espero que o facto de ele estar vulnerável lhe tenha permitido sentir a mulher bondosa e os filhos generosos que teve e não soube aproveitar… Hoje estou extremamente vulnerável. Soltaram alguns demónios em cima de mim. Vim para casa, deitei-me no quarto sozinho, agarrei-me na almofada e pensei: conto comigo, e não me autorizo a desiludir-me. Permaneci em silêncio por mais de uma hora. O peito é de carne, e estar vulnerável não é defeito ou feitio. Não posso mais dar o corpo às balas. As feridas são já profundas e o sangue perdido ultrapassa o recomendável para sobreviver. Nunca irei perceber porque, sentindo alguém vulnerável, há quem se tente aproveitar desse momento. Hoje podem roubar-me tudo, menos a essência. Essa, fica comigo. Decidi não despedir-me do meu pai. Não há “adeus” que nos cure. E eu seria incapaz de fazer algo, só choraria. Tento passar estas horas em paz e com a cabeça noutras coisas. Mas sente-se que estou vulnerável e aproximam-se os abutres mesmo que a carne esteja tão quente… Respira, expira. Não há mal nenhum em mostrar vulnerabilidade. O mal está em quem se tenta aproveitar dela, ou não a entende.

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