Ensaio sobre uma desistência

Ando há meses a implorar por férias que não chegam. Há muito as mereço. O meu corpo anda num estado de desgaste que não é nada bonito! Não estou fresco, nem me recomendo. Esta é uma daquelas alturas em que só me apetece ficar na cama deitado, olhos postos no infinito, a pensar que me ando a desvalorizar á custa de muito pouco. Há no silêncio um conforto que me deixa tranquilo. A voz da minha consciência, sobre qualquer mágoa, paira como um manto branco que cobre qualquer merda que me façam. E não mancha. Vivo de cara para o vento com a humildade de quem não sabe viver, mas aprende. Erro muito, mas aprendo com os erros. E se não aprender, não faz mal. É preferível tentar e falhar, insistir no erro, do que simplesmente não fazer nada. Nada é pior que estar de braços cruzados à espera que algo aconteça. Sinto-me muito orgulhoso por procurar sempre fazer alguma coisa. Mesmo que seja mal, faço. Este fim de semana foi péssimo. Fui visitar o meu pai e não me fez nada bem. A primeira coisa que vi foram os seus olhos encovados a perder vida. Foram já 6 quilos perdidos num mês. Está completamente resignado ao seu fim. Desistiu. Não aguenta as dores, não quer comer e quer apenas que a sua vida termine. Há uma certeza definitiva na sua voz. O fim está muito perto… E não há nada a fazer quando as pessoas desistem de si. Quando o cansaço chega e  a vida começa a largar suavemente o corpo. Sò a minha mãe e a minha irmã mais velha persistem na vaga hipótese de haver um milagre. Para mim, a casa dos meus pais deixou de ser o meu porto seguro. Neste momento é uma casa de silêncio onde paira a morte. Não se sabe quando, nem onde, mas está muito próxima… Não sei bem o que dizer, ou fazer. Este está a ser o meu pior ano de sempre. Muitas perdas. Muita desilusão. O meu pai não durará muito dado a sua desistência. Acredito que a força de vontade e a nossa capacidade de superação consegue verdadeiros milagres, mas quando as pessoas desistem de viver e se entregam ao infinito, é só esperar, normalmente não muito tempo… Penso que ele se deixou vencer. A casa onde cresci deixou de ser um misto de alegria e conforto. Hoje há uma sentença que ninguém quer ver cumprida. Emocionei-me á chegada, emocionei-me à saída… Este ano está a ser para esquecer. Embora tenha do meu pai uma mágoa enorme, tenho para ele o maior dos meus defeitos: amo as pessoas com a intensidade de quem sabe perdoar e ver a Vida para lá dos problemas, dos cansaços e dos defeitos. A Vida humana comove-me… Estou numa altura péssima da minha vida. Não pelo que tenho de agradecer, mas pelo que vou ter de abraçar. O meu pai desistiu de si mesmo. E em breve cairá sobre a minha vida mais um manto negro. Mais um… Neste momento da minha vida, sinto que paira na minha vida uma pressão tão grande que me aperta um pescoço. Não durmo. Como pouco. Não consigo motivar-me como antes. As pessoas desiludem-me, usam-me e abandonam-me à sorte. Sinto-me sem forças, e embora não desista, esteja saudável e capaz, estou cansado e incompreensivelmente desiludido. As pessoas são intrinsecamente más e infelizmente têm conseguido encontrar espaço para a sua maldade, na minha cabeça. Estou abatido. O meu pai desistiu de viver e em breve tudo ao meu redor será mais negro e denso… Fecho-me. Há um lugar sagrado onde vou, sozinho, e soluço por algo que sei ser inevitável. Não vejo nenhum conforto na desistência. Nenhum. https://www.youtube.com/watch?v=mer6X7nOY_o

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