Ensaio sobre um concurso “Investigador FCT”

Portugal tem vindo a ganhar posições num ranking que nos devia envergonhar: o dos países mais corruptos do mundo. Mas parece que ninguém se interessa muito e, começando pelos altos dirigentes, há uma vontade para que a coisa piore. Acho que de muitas coisas que fomos pioneiros a que mais me deixa boquiaberto, foi a maneira criminosa, leviana e completamente louca como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) fez e resolveu os concursos (públicos??) para contratar investigadores. Em 2 linhas é simples de entender para qualquer leigo: abriram quase 200 vagas para investigadores doutorados que vão ter direito a um contrato de 5 anos. Ora o concurso seria aberto para todos com base no mérito de modo a seleccionar os melhores. Claro que, neste lindo jardim à beira-mar plantado, um jardineiro iluminado lançou a semente da chico-espertice, logo germinada nos gabinetes da FCT e provavelmente do Ministério da Ciência, que o ideal era as instituições seleccionarem quem queriam que concorresse. Em termos práticos lá se foi o sentido público baseado no mérito porque só as candidaturas apoiadas por um instituto, universidade ou laboratório associado puderam ir a concurso. Isto já bastaria para divagar sobre a incompetência e a dissimulação desta gente. Mas não se ficaram por aqui. Há muito pior. Há muito que os nossos governantes e as pessoas que apoiam perderam o respeito por quem trabalha e se esforça. Pelo povo e pela elite cultural, que mal ou bem, formam. Estes doutorados a concurso foram apanhados de surpresa quando receberam 1 e-mail a comunicar que a candidatura preenchia (ou não) os requisitos para ser considerada e, pasme-se, 2 dias depois chega outro e-mail a dizer simplesmente se o lugar foi aceite ou recusado. Em 2 dias analisaram-se mais de 1000 currículos para 200 lugares. Não houve seriação, não existiram justificações e os critérios estão no segredo dos deuses. Mérito? Viste-lo. É pegar na lista pública de aprovados (porque só isso lhes interessa divulgar) e ver currículos e o mérito que têm alguns dos seleccionados. Quanto aos outros, não seleccionados, resignem-se. Estão em Portugal e se não querem emigrar, habituem-se. Fazem doutoramentos, ganham projectos, orientam alunos, dão aulas nas universidades, publicam muito, dedicam-se à profissão, mas não merecem o mínimo de respeito ou consideração. Foram derrotados e para ganharem já sabem o que fazer: meter uma cunha depressa! Mas depressa e bem! Se conhecerem a pessoa certa, nem precisam de publicar ou investigar o que quer que seja. Se forem filhos de um nome sonante, ou amantes de um qualquer influente têm garantido um lugar. Se dão nas vistas, fazendo números de divulgação em ciência de àreas que não dominam porque não trabalham nelas mas são fashion, então estão garantidos. Os outros rezem. Mas não rezem a Deus. Peçam ao Diabo que os carregue. Que os leve para bem longe do nosso País. Esta fraude a que chamaram concurso foi tão ignóbil que os contratos estão já a ser feitos. Comunica-se que a candidatura preenche os requisitos, mandam-se os resultados (sim ou não) em 2 dias e uma semana depois tá tudo a tratar de assinar os contratos. Não se justifica nada, diz-se (mas apenas “diz-se”) que haverá espaço para recursos. Só não haverá é dinheiro para os aceitar. Até porque não serão, certamente, aceites recursos comparativos… E é assim que vivemos numa democracia de tachos que nos andam a cozinhar em lume brando. Perdeu-se a vergonha. E já nada nem ninguém escapa. Os que por mérito conseguiram, e concerteza haverá alguns, não se quererão associar a esta porcaria de concurso. Mas a vida está difícil e é importante escapar ileso. Os únicos culpados de tudo isto somos nós que continuamos a aceitar estes escândalos. Continuamos sem pedir justificações. E a justiça não funciona. Isto meus amigos, não é brincadeira. É fraude, corrupção, gestão danosa, falta de transparência e acima de tudo um desrespeito pelos dinheiros públicos e pelos doutorados deste País. Eu só me pergunto até quando e até onde estaremos dispostos a aturar esta gente… Embora não tenha concorrido, conheço muito quem mereça pelo menos o respeito de um País que muito lhe deve. A vida de Investigador em Portugal é ingrata (monetariamente e nas condições de trabalho), mas pior que isso é acordar com a certeza de que não adianta trabalhar e ser bom…. 

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