Ensaio sobre estar de cama

Quando estamos doentes é que realmente sentimos a necessidade de ter alguém que nos afague os cabelos e nos relembre de que o mundo não acaba com uma febre nem com as dores no corpo motivadas pela gripe, constipação ou doença similar. De facto este é o meu segundo dia consecutivo fechado no quarto, deitado na cama. De duas em duas horas veêm-me espiar mas falta aqui qualquer coisa, mesmo que falso. Já me doem as costas e o corpo não dá treguas. Hoje é um dia bom para simplesmente pensar. Lá fora está tudo cinzento, só hoje me dignei a levantar a persiana e ver o tempo. Este Inverno parece não terminar. É chuva, é frio, é vento. É tudo o que menos gosto e me trouxe estas dores de garganta terríveis. Tomo pastilhas, anti-inflamatórios, anti-piréticos, e até chá com mel. Tudo para que possa melhorar e restabelecer-me o melhor e mais depressa possível. Detesto estar assim. Febril e abandonado à sorte de que algo de pior não suceda. Tenho sempre na lembrança como a minha mãe nos tratava nestas alturas. Faltava ao trabalho e ficava connosco o dia inteiro. Ligava a televisao, dava-nos Nestum, água e xarope de cenoura. Não afagava os cabelos mas não nos deixava sós. A doença e a solidão são coisas que não se dão bem juntas. Seja por nos trazerem fantasmas do passado, seja por nos despertarem fantasmas do futuro. Sempre acreditei que há uma boa dose de vontade própria nas melhoras de qualquer pessoa. Um motor interno que nos obriga a afastar as doenças e a recuperar depressa. Infelizmente essa vontade própria existe, muitas vezes, como reflexo de outras vidas. Desse mal não padeço eu. A minha vontade é só minha e depende apenas da minha capacidade de me motivar bem cá dentro. Estes dois dias trancado no quarto, espiado ao longe, deram-me espaço suficiente para perceber isso mesmo. Talvez vá sendo tempo de mudar qualquer coisa e recuperar de uma vez por todas deste estado de adormecimento em que tenho estado nos ultimos anos… Este tempo maldito, este Inverno que não termina mesmo quando a Primavera já começou há tanto tempo. Tudo parece reunido para me assombrar a saúde e a alegria. Não estou cinzento porque não tenho cor. O meu estado de espírito oscila. E a minha solidão é sempre a minha melhor companheira. Estou pelo segundo dia consecutivo de cama mas aguardo a chegada do bom tempo para aplicar novas medidas na minha vida. Estar doente, passar horas de olhos abertos a olhar o infinito do quarto, tem vantagens dificeis de descrever. É muito tempo sem fazer nada. Muito tempo dedicado apenas ao pensamento. Pensei muito estes últimos dias. Pensei em coisas que normalmente não tenho tempo para pensar… Estar doente também tem um lado positivo. Há sempre qualquer coisa de bom em tudo o que nos acontece. Mesmo que estejamos fartos de febre, dores, cansaço… Não vou desistir de tirar algo de muito bom destes dias estendido na cama. Certamente sairei mais forte desta gripe porque nela aprendi qualquer coisa para a vida. A solidão do quarto não me mete medo, nem o abandono. O que realmente é assustador é conhecer bem as pessoas que por vezes nos rodeiam… Pelo menos hoje já consigo pegar no computador, fingir que faço qualquer coisa. Responder a e-mails e planear os próximos dias. É melhor manter-me ocupado do que continuar a olhar para o infinito… É que por vezes o infinito mostra-nos mais do que queremos ver e esfrega-nos na cara que nem tudo é como imaginamos. Há uma linha que separa o que pensamos ter, do que realmente temos. E é preciso muito tempo para ultrapassá-la e chegar com força ao outro lado…

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