Ensaio sobre a resistência humana

A crueldade do ser humano é tão imensa que não dá espaço para a surpresa e o absurdo. Nos momentos mais sensíveis em que nos encontramos mais susceptíveis ás agressões externas, é quando aparecem os murros mais fortes no estômago. As cotoveladas mais discretas e os beliscões mais disfarçados. Mas de tudo o que fica cá dentro, há certezas que não se diluem mesmo nos momentos mais baixos. As coisas mudam de lugar. As pessoas deixam de ter o mesmo peso na nossa Vida. E é no dia seguinte que os músculos exactos contornam a crueldade dos que se aproveitam e se alimentam da nossa fraqueza. É por isso que raramente estou abatido ou com um aspecto pisoteado, mesmo que por dentro tudo esteja destruído e nada permaneça intacto. A minha fraqueza só é alimento para o desenvolvimento dos meus músculos. Se a crueldade humana há muito deixou de me surpreender, a resistência humana ás condições adversas é uma fonte inesgotável de alento. Todos os dias sou confrontado com histórias de superação. E não me refiro apenas à superação física. A aprendizagem emocional é por si só uma viagem que gosto de fazer… A crueldade humana, nos momentos mais baixos da nossa carreira ou da nossa vida emocional, é apenas mais um obstáculo. Desses que se colocam para que a Vida não seja uma recta. Plana. Convém passar por curvas e pelos relevos. Espreitar os atalhos com curiosidade e sair a correr pelos campos que nenhum outro animal pisa. Descer colinas só para ter de ultrapassar montanhas. Sentir frio, libertar calor. A resistência humana não conhece fronteiras nem limites e existe por aí à espera de ser revelada. É por isso que de tão interessante “A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger. A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair…”. E quando estamos quase no ponto onde queríamos, vem um vendaval, um furacão que se solta no mau tempo da Vida, e tudo vira uma roda-viva levando o que pensamos ter de mais precioso. Mas logo a seguir estamos um pouco melhor. Mais resistentes e mais lutadores. Talvez até mais capazes, se ser capaz é conseguir sobreviver. É por isso que vivo com alguma confiança de que esta austeridade e estes maus tempos que tenho sentido podem ter um lado muito positivo que está quase encoberto pela raiva e pela injustiça que sinto como minha. Eu que passo quase incólume, como não me canso de repetir, vivo esta austeridade como uma crueldade que aplicam ao meu melhor amigo. E quem faz ao meu amigo, faz comigo. É uma velha máxima que aprendi em boas companhias. Algo que enquanto adolescente ouvi vezes sem conta e fui interiorizando como lei. A crueldade que é hoje exercida aos que me são próximos, pode ser um ensaio para algo maior que se dirige a mim. É por isso que quem faz ao meu amigo, faz comigo. Somos pessoas diferentes, mas as amizades são a família que escolhemos. E devemos estar sempre por ali a defendê-los das balas mesmo quando nos parece uma batalha perdida. Eu não concordo com muita coisa que os meus amigos fazem. Se calhar algo pode mudar pelas opções que tomam, mas não tenho por hábito simplesmente abandonar o barco em pleno temporal. A crueldade humana é imensa mas maior ainda é a resistência. Todos os dias, sobre a camada de pele, se criam cercas invisíveis e protecções mágicas. Não há dor que permaneça nem maldade que perdure quando sabemos que estamos vulneráveis e fracos só à espera do momento certo para recuperar. Ás vezes é bom dar um passo atrás, apanhar balanço, abrir as asas e simplesmente ir. Os ventos podem ser austeros, mas a minha vontade é força que nenhuma natureza domina!

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