Ensaio sobre madrugadas de solidão

Existem madrugadas de solidão que habitam a minha casa. Andam comigo para onde quer que vá. De há uns anos para cá, fazem parte de mim como o ar que respiro ou a pele que forra o meu corpo. Não sei de onde vêm nem para onde vão. Só sei que estão aqui e são reais. Vem a saudade de um Tempo que já passou e só por isso não existe mais. Estico-me. Reviro os olhos e mexo-me na cama. Ligo a luz. Leio 10 páginas de um livro interessante, mas a cada virada de folha sinto o cheiro esquecido dos livros que li em outro Tempo. Apago a luz. Cubro a cabeça. E por entre o espaço das almofadas balbucio qualquer coisa que nem eu entendo. Ligo a luz e vou perambulando pela casa sofrendo por um Tempo que não mais voltará… Olho o relógio na parede e os minutos passam devagar. É o silêncio que atrapalha e se mete no meu caminho. Ligo o computador e passo os olhos desinteressados pelas páginas que em outras ocasiões me parecem tão importantes. Tudo me enfasta e me leva onde não quero ir. A noite é cruel quando a sensibilidade se instala sem medo, só domínio completo e absoluto. O computador bloqueia uma e outra vez, sente o meu desapego das coisas. Esta é só mais uma madrugada de solidão em que escrevo para dar uso aos dedos, e paz à cabeça. Não sei o que penso, mas sei o que não penso. Não há dúvidas, só a cruel certeza de que este meu hábito de andar de cabeça erguida e solta ao vento, sem amarras, é algo que me desgasta emocionalmente. Preciso destas madrugadas de solidão como o mendigo necessita de pão. É o alimento da alma, o esgotar da bateria para que amanhã tudo se renove… As promessas que me fiz e não cumpri lembram-me que falho mais vezes comigo do que com os outros. E não consigo mudar. Sou incapaz de abandonar o barco, mesmo não sendo capitão, quando existe uma tripulação. Mas é tão ridículo o abandono a que me remeto quando sozinho escrevo mais um texto desinspirado e ouço muito baixinho, numa voz que parece querer-me derreter, músicas românticas e poemas belíssimos. Talvez devesse ouvir samba ou pop. Quem sabe rock. Mas a insónia ia ser mais longa e a manhã ainda vai longe… Chegam-se recordações e memórias. É o fim do dia. A sexta-feira na estação de comboios. As viagens, os sorrisos e a inocência que só as grandes paixões permitem. De tudo o que sinto mais falta, o tempo encantado da descoberta de um mundo que me parecia tão grande, é a perda que mais lamento. Esse mundo hoje está tão reduzido que quase não me surpreende… A vida continua interessante, mas há um encantamento, uma poção mágica de faz de conta, cuja receita me parece perdida no tempo. E eu sou a personagem de uma história que não consigo narrar. Não há fantasia. Há mentira mas não imaginação. Há conflitos mas não alucinações ou miragens que me façam esquecer… Estou, modéstia à parte, merecidamente bem. Tenho materialmente mais do que imaginei. Das primeiras coisas que sonhava comprar era um carro. Principalmente nos dias de chuva em que percorria a pé alguns quilómetros para ir para a escola. Nunca senti inveja de quem passava de carro. Pelo contrário. Pensava antes: ainda bem que têm um, também quero merecer um. Desde sempre me lembro de ter bem presente na cabeça: para ter algo é preciso trabalhar muito e merecer. Uso então estas madrugadas de solidão para aprender e conhecer o Tempo. Não estou a ficar mais novo a cada dia que passa. É por isso que tenho de aprender o melhor que possa para merecer um novo encantamento que me arraste destas madrugadas de solidão e me ensine a dormir. Que me dê sonhos sinceros e risos mais que perfeitos. Há madrugadas de solidão que só o são porque o quero e preciso. São o meu ponto fraco, o que me torna mais forte…

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