Ensaio sobre o frio

Está um frio quase insuportável. E é este clima de neve e gelo que me leva a questionar se todas as casas têm aquecimento ou dinheiro para pagar a conta de electricidade que se adivinha exagerada este mês. Mais do que o regresso do País aos mercados financeiros ou a emissão imediata de dívida pública, importa-me saber se há abrigos quentes para quem vive na rua e apoios para quem é incapaz de ter um simples aquecedor ligado. Depois de anos de democracia, é impossível aceitar de braços cruzados a decadência social e política. A degradação da situação económica das pessoas devia ser o catalizador da mudança. A falta de calor humano é o enquadramento perfeito deste tempo que hoje me gela quase até aos ossos. Andamos todos às voltas com as nossas coisas e somos incapazes de parar um pouco para pensar nas pessoas que hoje se enchem de roupa e sobrevivem apenas com a manutenção do calor do seu próprio corpo. É que os aquecedores também trazem desvantagens. Aprendemos a depender do calor de umas máquinas que funcionam a electricidade, esquecendo completamente que o nosso corpo é, também ele, uma pilha natural. Produzimos calor. Podemos oferecer um pouco dele a quem tanto precisa… É interessante o que se faz por dinheiro, e o que não se faz pelas pessoas… Este tempo frio, de neve e gelo, é difícil para quem vive com o conforto de uma casa, um carro ou estabilidade financeira. Mas quem não tem tudo isso, como sobrevive a este tempo? Talvez alimentando a tristeza. Essa mesma que é “aboio de chamar o demónio”. Estes traços muito pouco democráticos vão arrastando a nossa sociedade para um abismo muito perigoso. Estamos cada vez mais perto do fosso. É só mais um passo e a maioria vai cair certamente. Vive-se muito mal neste País. O frio que gela ruas e avenidas é o mesmo que nos vai condenando a um fim penoso e lento. Se há umas décadas se morria de fome por não existir alimento, agora as prateleiras estão cheias mas babamos para conseguir comprar o que necessitamos. Os preços dos produtos básicos aumentam bastante e os salários diminuem. Comprar luxos é sinónimo de arriscar o crédito e endividamento. Eu serei dos que menos pode reclamar porque estes embates austeros passam-me um pouco ao lado. Tenho uma resistência grande mas acima de tudo a minha vida está estável por mais uns anitos. Depois disso logo se verá se o frio me atinge ou se o tempo (ainda) mais quente se chega… A neve e o frio vieram para ficar. Há até autoestradas fechadas. Eu vejo um horizonte branco. Tranquilo. Austero. Penso que é uma metáfora do que têm sido estes últimos 2 anos em Portugal. A televisão só mostra tragédias. Todos os dias aparecem relatórios pagos a peso de ouro com novas medidas de austeridade, mais cortes salariais, mais cortes na saúde e educação. A arte simplesmente não tem mais apoios e existe um acordo tácito para que o intelecto do Povo não se desenvolva. Os temas realmente importantes são ignorados e as pessoas, que são quem interessa, são esquecidas. Neva. Caem flocos de neve e o frio parece ter vindo para ficar durante uns dias… Continuo a pensar: quantas famílias vão senti-lo de fora para dentro para que eu, sortudo, apenas o sinta de dentro para fora? Se é verdade que com frio trabalho melhor, anseio que depressa brilhe o sol e a temperatura possa subir. Não há nada melhor que anda nu, completamente exposto, de consciência tranquila. Não me limito a seguir pensamentos ou correntes ideológicas. Não me fico pelas palavras porque sei que elas podem ajudar a mudar, mas é a acção, o nosso comportamento no dia-a-dia que vai permitir que este frio humano se dissipe. Porque a natureza vai-se encarregar do outro… Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=BBk2tSLAx28

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