Ensaio sobre zombies

Chegaram novas medidas de austeridade. Tenho medo que se tenha criado, no ministro das finanças, um hábito de apenas convocar a imprensa para anunciar medidas de austeridade. Impostos e mais impostos. Parece que vivemos numa era em que nos tentam levar até a roupa que trazemos vestido. E ficarmos nus não chega. Precisamos passar um pouco de fome porque como se pode ver nas ruas, as pessoas estão muito gordas e comeram durante anos muito mais do que podiam e deviam. Mas a austeridade, infelizmente, é necessária. Acredito sinceramente que esta é uma oportunidade de ouro para as pessoas se fartarem de política e politicos. Para exigirem responsabilidades às pessoas que durante anos nos desgovernaram e arruinaram. Não sou daqueles que acham que as pessoas só aprendem com castigos mas este grande castigo que nos tem sido impingido pelos políticos em geral, tem de ter consequências nos próximos anos. Os portugueses não podem nem devem ter memória curta nas próximas eleições. Se é verdade que escasseiam as alternativas, a alternância pouco saudável dos mesmos partidos pelo poder deve ser evitada. As pessoas estão cansadas mas não podem deixar-se vencer pelo cansaço. Não é apenas toda uma geração que está em risco mas todo o País. Há um desencanto natural pelo estado das coisas. Há um certo desânimo porque sentimos que todo o esforço é em vão. Atrás da austeridade, mais austeridade virá até pouco mais nos restar que a pele e o osso. A guerra económica é mais silenciosa que as outras grandes guerras, mas nem por isso menos mortal e perigosa. As pessoas vão morrendo aos poucos. Vivem como zombies a pagar uma dívida que não contrairam e luxos que não tiveram. Vale a pena recordar que em Portugal há muita gente a viver mal. Há muita gente sem acesso a educação, médicos, cuidados primários e serviços públicos de qualidade. E toda essa gente paga impostos como todos nós. Durante anos foi contraída uma dívida que não foi referendada. Não foi aprovada pelo Povo nem sequer explicada. E mesmo hoje, enquanto nos exigem sacrifícios, ninguém explica afinal para onde foi o dinheiro pedido. É muito abstracto dizerem que foi gasto em autoestradas ou em mega construcções. Eu, que gosto tanto de ler e me informar, quero saber onde e quando. Quem autorizou e porquê. E gostava que a gestão danosa, essa mesma que nos arrastou até este ponto, fosse finalmente considerada um crime público. Acho indecente ter de ouvir todos os dias falar em austeridade e a responsabilização de quem nos trouxe até aqui nunca é referida. Fica assim como um segredo. A culpa, neste caso, vai morrer solteira por ser feia, indesejável e praticamente invisível aos olhos de quem tem por função investigar crimes. Estamos entregues aos bichos e eu pergunto até quando estará o Povo disposto a ignorar que existe muito quem se pavoneie com o dinheiro que hoje pagamos a juros milionários! Somos um pouco zombies. Estamos com uma doença social qualquer que nos turva a vista e nos obriga a fechar os olhos perante estes crimes contra a humanidade que os políticos praticam. Fazem-no às claras. Todos sabemos, todos sentimos na pele a injustiça e o desânimo. Não acho que trabalhe pouco. Pelo contrário. Eu tenho trabalhado muito mais do que devia. Mas gosto de trabalho. E os portugueses são um povo trabalhador. Talvez trabalhadores demais, de tal maneira que se deixam enredar num adormecimento torpe e absurdo que os transforma em zombies. Zombies dos tempos modernos, infectados por uma doença social que é a desresponsabilização. Ninguém tem culpa de nada. Mas quem trabalha, tem de pagar tudo…

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