Ensaio sobre uma notícia

Todos os dias são bons para se mudar qualquer coisa quando não estamos satisfeitos. Claro que a satisfação total e absoluta não existe tendo em conta o espírito humano sempre inquieto e condenado a ser um estrangeiro da sua própria vida. Isso não significa que as pessoas devem ser infelizes. Pelo contrário. Devemos dar graças quando o nosso espírito combativo e lúcido exige mais. E por mais entenda-se a construcção não de uma casa própria mas antes de um novo bairro, uma nova vila, uma nova cidade, um novo país e por fim um novo Mundo. Muito melhor do que este que se degrada aos poucos, feito manteiga tocada pela faca quente. E enquanto se derrete em gordura, vai liquidificando os nossos sonhos por um mundo justo e honesto. E este parece um fenómeno sem retorno. Mas ainda que se confirme a inevitabilidade, não devemos parar de protestar. Sem violência, mas com veemência. Sem dúvida que aos poucos, estes novos protestantes sem religião, vão sendo confrontados com a dura realidade: quem fala, sofre as consequências. Toda a gente sabe isso. Não é que eu defenda, de maneira alguma, uma teoria da conspiração onde se dá importância demasiada a isso. Mas face à verdade, ainda que inconveniente, é preciso abraçá-la sem qualquer problema. As represálias que se preparam contra os que assinalaram e sublinham as letras pequenas, os asteriscos e as alíneas, só existem se passarem a ter importância substancial. É bom saber que existem, mas não perder muito tempo a pensar nisso. Escrever umas linhas, desabafar um pouco, e esquecer depressa. A vida é um livro de esquecimentos, e tudo o que nos tolda a mente e nos limita na busca de justiça deve ser imediatamente esquecido para que não nos molde o pensamento e nos limite as acções. É assim como ler jornais cujo slogan é: “fazemos opinião” ou ver telejornais que dizem “juntos criamos notícia”. A primeira coisa que me ocorre é que a comunicação social, cada vez mais poderosa, deixou de ter pudores e passa a usar slogans que transparecem imediatamente aquilo que se passa nos nossos tempos: ter um meio de comunicação social à disposição é meio caminho andado para controlar todo um povo. É que estes jornalistas (?), com ética cada vez mais dúbia, são mesmo capazes de fazer opinião. Leia-se que eles não a dão, nem a expõem. Não. Eles fazem! E fazem-na na maioria das vezes recorrendo à calúnia e à mentira ou à pura ficção. Mas não chega ter de ler esses fazedores de opinião. Não. Temos ainda de ver televisões que apresentam telejornais que usam as suas audiências para criar notícias. E o slogan não é inocente nem deixa margem para dúvidas. Juntos criamos notícias. Pois eu hoje não preciso criar nenhuma. Vou usar apenas os factos para informar que em Portugal há muito se perdeu a vergonha e o bom senso. E estes salteadores do poder que buscam a eternidade pela usurpação e o luxo pelo roubo, vão usando a seu belo prazer o povo. Emitem slogans curtos e directos que ameaçam directamente todos os que possam fazer-lhes frente. E é por isso que este País não anda. Regride. Não existe uma verdadeira elite cultural. Ups! Não existe cultura acessível à população. Não existe honestidade nem gente de valia nos cargos políticos e empresariais mais relevantes. Ups! Cargos políticos e empresariais são praticamente os mesmos, ocupados pelas mesmas pessoas em meses de distância. E assim se tenta limitar quem está contra o sistema. Afinal, “eles” fazem opiniões e criam notícias. E algumas dessas opiniões feitas são tão falsas quanto as notícias criadas. Mas fazer o quê? Quando esses slogans estão por todo o lado, até no famoso facebook, e ninguém se importa, é porque algo está muito mal com as pessoas em geral! Talvez seja por isso que cada vez me identifico menos com esta sociedade e as pessoas em particular. Irrita-me profundamente este despreendimento e este desprezo generalizado pelo que é flagrante. Na era do facebook e do poder das redes sociais e da mobilização, nunca se assistiu a ataques tão flagrantes e absurdos à liberdade e ao bem-estar das pessoas. Perdem-se horas a twittar e a pôr no facebook o estado de espírito e as coisas mais inacreditáveis, mas não se preocupam com os fazedores de opinião e os criadores de notícias. É como aquele pai que deixou o bébé fechado no carro durante horas mas não esqueceu de postar várias vezes coisas no facebook. A vida humana, mesmo os de seu próprio sangue, vale tão pouco… 

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