Ensaio sobre ser inseguro

Se me permitisse, era capaz de ser muito inseguro sobre tudo. Capacidades intelectuais, físicas e até em toda a minha vida pessoal. Mas felizmente raramente me dei a esse luxo perverso e tenho uma grande qualidade: imediatamente resolvo o que me tira o equilíbrio. Gosto de sentir os pés bem assentes no chão e ele não me pode fugir. Não consigo estar em constantes abanões e enjoa-me o balancear inconstante da insegurança. Conhecendo os limites, só temos de os ultrapassar e ter humildade para reconhecer que por vezes, por maior que seja o esforço e dedicação, não conseguiremos cumprir algumas tarefas. E há sempre a questão de tentar fazer apenas o que nos dá prazer. Mas nem sempre é possível, assim como ter de cozinhar mesmo quando não gostamos. Não é que seja impossível servir um banquete digno da mais alta cozinha, mas prefiro não me dedicar a isso… Mas se preciso for, mando às favas a insegurança. Arregaço as mangas e faço. Melhor ou pior, repetindo vezes sem conta, por tentativa e muito erro, mas conseguirei servir esse jantar imaginário que me possa ser proposto! O luxo de não ser capaz é apenas para os que estão protegidos pelo manto do mimo e vida fácil. Haverá, concerteza, coisas que não me deixam inseguro mas antes certo de que serei incapaz como por exemplo fazer desportos radicais. Não por não gostar de desporto mas antes por convicção de que arriscar a vida a descer um rio em fúria numa canoazinha é um sinal de pura idiotice. Se querem adrenalina, porque não pegam num tractor e vão para esses campos espalhados pelo país ganhar uns trocos. Nada melhor que viver no limite do esforço físico por uma boa causa. Encontram-se animais de toda a espécie e vão ver como é duro e quase inacreditável o esforço físico que requer acordar ás 6 e voltar ás 19 para ganhar 10 euros ou pouco mais. Há outra actividade bem radical: pesca artesanal. Preparar as redes, enfrentar a fúria do mar para no fim da madrugada ganhar meia dúzia de trocos… A insegurança que sinto é normalmente proporcional ao meu cansaço. Posso ter muito pouco que fazer ou o desafio ser aparentemente simples, mas o acumular de noites mal dormidas ou preocupações, podem tornar a coisa muito complicada. Simplifica-se então, tanto quanto se pode, a tarefa. Decompõe-se o problema em pequenos pontinhos e une-se como numa brincadeira de criança. Sinto-me inseguro em relação aos problemas de saúde que por vezes surgem em pessoas próximas. Sinto-me inseguro quando pessoas que julgo capazes, honestas e inteligentes cometem as maiores atrocidades. Sinto-me inseguro quando sinto que alguém que me rodeia vive obcecado com coisas menores como dinheiro, poder, carreira… E quando me sinto inseguro, abandono a faixa de rodagem. Estaciono e encontro um atalho. As estradas são muito mais seguras quando toco no chão e sinto o pó da estrada nos pés. É preciso correr com a insegurança e esquecer os limites. Na vida só há limites quando nos intrometemos em liberdades alheias. De resto é ir. Vencendo os medos e os obstáculos sem dúvidas e sem certezas. A insegurança é amiga da infelicidade. São tão amigas que estão quase sempre associadas. Quanto mais confiante estou de que o caminho, apesar de tortuoso e lamacento, é o possível, mesmo que não seja o certo, mais perto estou da paz. E não gosto de guerras. E não me permito a entrar numa. Opto sempre pela segurança que conheço tão bem quanto o meu passado. Podemos andar pelos caminhos da vida com espírito de aventura. Mas que seja essa uma marca de busca de segurança e não a condenação a uma vida cheia de inseguranças e infelicidade…

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