Ensaio sobre esticar os ossos

Nunca mais chega o Verão. Já sinto falta do calor e dos dias de praia. Preciso do calor e da moleza que se sente nesses dias para recuperar um pouco destas noites mal dormidas que me perseguem. Acho que necessito de férias aqui no Porto. De estar envolvido em algo que me entusiasme nesta cidade. E se há coisa que gosto, é de mudar. De fazer coisas novas e diferentes. Explorar novos caminhos e ter em mãos trabalhos muito diferentes. Esta é uma boa fase para o fazer. Para me distrair daquilo que vem sendo notícia. Quer no domínio público, quer no domínio privado, tenho sentido intensivamente o peso da injustiça e da frustação. Não é que esses sentimentos persistam mais do que devem, mas é difícil digerir tudo o que parece demasiado óbvio. É mais do que certo que trabalho mais do que devia. E falo mais do que devia. Digo o que penso sem ter cuidados. É que o exercício da liberdade, nesta sociedade, é mais um teste do que uma obrigação. E eu chumbo em todos porque aponto o dedo, sem problemas. Denuncio em todos os lugares que posso, em todas as reuniões, em todos os locais… Preciso de sol e de praia para que a cabeça se esvazie um pouco e me concentre um pouco mais em mim. É que não me posso queixar da vida que tenho, mas as preocupações com as pessoas em geral, consomem tempo e desgastam a alma. É assim como uma sombra que me persegue mesmo quando o sol não brilha. Vejo com olhos nítidos o desmoronamento social e político. E choca-me esta falta de vergonha geral. A maioria das pessoas não serve para os lugares que ocupam. A maioria das pessoas não quer cultivar-se. Dá muito trabalho e hoje em dia ninguém quer trabalho, só emprego. Aprender deixou de ser importante. Leêm-se romances baratos e notícias on-line dessas escritas por jornalistas que têm zero de dignidade e ética. Vejam-se as notícias que saem em primeira página e que depois motivam desculpas esfarrapadas. Notícias inventadas. Meias-verdades que ninguém se digna a confirmar. É assim como uma bíblia dos tempos modernos. Verdades absolutas que condenam à fogueira inocentes. Bruxos e feiticeiros. E apesar da crueldade da condenação, e da descoberta da verdade libertadora, a culpa morre solteira. É assim como algo caído do céu. Um meteorito. Um OVNI. Um corpo estranho que cai sobre uma verdade absoluta e a põe em causa. A mim, sempre me meteu confusão esta falta de coragem e Humanidade das pessoas. Errar é muito humano. E ser humano é bom e faz parte. Eu já errei muitas vezes e em muitas coisas. Já magoei pessoas, já tive más decisões, já cometi erros profissionais infantis. E provavelmente farei muitos mais nos anos por vir. Mas, há sempre um mas, admito tudo o que possa ser associado a mim. É que os erros não se corrigem. Mas podemos aprender com eles se aceitarmos as responsabilidades. O pior não é errar, é não admitir o erro. É uma pena que a nossa vida seja feita de erros e acertos, e exista quem não queira ver os seus erros. Conhecer as limitações é um grande passo para ultrapassá-las. Talvez seja possível, um dia, exigir que a mentira, a burla, a soberba, a incompetência e a culpa, sejam socialmente condenáveis, já que a justiça é o que se sabe! Que pena esta formatação quase mecânica das nossas crianças para que não tenham consciência. É que sem a implementação de uma forte presença da consciência, esta sociedade moderna nunca mais andará para a frente. Enfim. O melhor é mesmo esticar o corpo na praia e apanhar um pouco de Sol. Toda a energia será necessária. Há muita coisa que precisa ser feita. Há muitas situações que precisam ser denunciadas. O trabalho é o meu alimento. E eu preciso de comer, todos os dias…

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