Ensaio sobre a limpeza

Sempre gostei de limpezas. Abrir um saco e empurrar tudo lá para dentro. Depois descarregar num grande caixote onde homens, no silêncio da noite, tratam de levar para bem longe o que já não queremos! Quem me dera que fosse possível fazê-lo também com pessoas. Colocá-las no lixo da nossa vida, descarregá-las em caixotes metafóricos onde semelhantes se encarregam de os receber. E na calada da noite homens corajosos poderiam levar para bem longe os que vão atafulhando a nossa Vida. Este país precisa de coisas novas. De ideias realmente úteis e gente realmente capaz. E há por aí muita. Apenas não tem a oportunidade de fingir-se de esquerda ou de direita. Apenas não conseguem colar-se a uma idealogia que não têm, não sabem que existe ou apenas não acreditam. E de teóricos ando eu farto. É vê-los inventar soluções que na prática não passam de teorias ridículas e ridicularizadas. São assim as pessoas que se sentam no computador e gastam a sua energia a pensar como enriquecer depressa. Como engordar o corpo e a conta bancária. São os economistas do pouco. Os gestores do dinheiro de ninguém. Os sociólogos incapazes de passar a barreira entre o real e o que julgam saber… Andamos nisto provavelmente desde sempre. E vivemos numa espécie de pouca democracia, camuflada por eleições quase livre onde benjamins sagrados de partidos políticos vão ascendendo à promiscuidade entre governação e interesses privados. Temos pouca gente de qualidade em lugares de destaque. E desde sempre tenho dito que esse é o nosso problema. Temos gente sem qualidade técnica e humana a tomar decisões que afectam milhões de pessoas… Somos um país de brandos costumes. E não gostamos muito de mudanças nem de limpezas. Nos últimos 20 anos temos quase sempre as mesmas pessoas a circular por entre os corredores do poder. Os mesmos ministros ou ministeriàveis. Os mesmos sociólogos a opinar. Os mesmos gestores muitas vezes acumulando cargos em dezenas de empresas. Os mesmos comentadores políticos. Os mesmos presidentes de câmara. Os mesmos deputados. Os mesmos partidos. Os mesmos sobrenomes nas novas caras que surgem. Os mesmos benjanins e os mesmos graus de parentesco entre os que estão, os que vão estando e os poucos que chegam de novo… Os portugueses têm casas asseadas. Têm uma limpeza no próprio corpo que inveja qualquer povo europeu. Mas não têm a capacidade de fazer uma limpeza ética nos corredores do poder e nos partidos políticos. E os tribunais deviam cheirar a flores. O algodão não engana e em cada processo que se abre salta à vista o negro. O pó. As nódoas nos documentos, nas palavras, nos actos e até nas omissões. A limpeza deveria ser pública para que todos saibam o que se faz e o que se tem feito. O País é grande e para cada lugar limpo, deveria ser escolhido o mais capaz. Como uma selecção biológica natural. Os mais capazes e mais aptos deveriam estar nos melhores sítios. Há um endeusamento da mediocridade que não consigo perceber, e acho que jamais conseguirei. A limpeza devia começar de baixo para cima. Para que a pirâmide não se desmorone. Da mesma forma como durante décadas se conspurcou o sistema desde a raíz, é preciso limpar. Esfregar. Fazer uma limpeza a fundo em todos os cantos, esquinas, gabinetes… A limpeza é tanto mais urgente quanto a poluição que nos cerca. E há muito tempo que me sinto cercado por lixo em todas as direcções. Em todos os lugares. Em todos os jornais. Em todas as televisões… Já é mais que hora de abrir o saco, empurrar gentilmente todo o lixo e esperar que ele seja tratado onde merece: na lixeira. 

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