Ensaio sobre Maria Bethânia interpreta Chico Buarque

“E a multidão vendo atónita/ ainda que tarde/ o seu despertar”. Foi com esta frase, ao terminar a música de abertura do show, que Bethânia sacudiu o público dizendo ao que vinha. Trazia na bagagem a rosa dos ventos que sob o sono dos séculos vai alimentando a revolução que se pretende mas que não tem força para brotar. Em Portugal, este país a precisar de uma nova revolução, não poderia ter começado melhor o show. E isto é excelência e arte. De Chico Buarque, escritor da História, e Bethânia a voz e intérprete que faz ecoar no Tempo o despertar. Com “gente humilde” despertou a minha memória para os meus pais e a casa onde nasci. Sem àgua canalizada. E essa é a minha gente. Gente que vai em frente sem ter com o que contar. Gente que vive do fruto do trabalho e não espera nada da vida. Relembrei rapidamente como nem sequer um rádio tive até aos 14 anos. E percorria as lojinhas e cafés para ouvir música, à espera que passasse uma música de Bethânia. Depois lá ganhei um rádio-relógio. Durante horas percorria as estações de rádio à procura de algo que valesse a pena ouvir. Hoje consigo comprar bilhetes para a segunda fila de concertos de Bethânia. Viajo pelo mundo, compro CD’s, DVD’s e as conquistas são muito maiores que os arrependimentos… Bethânia seguiu o show sem saber o que aqueles minutos me fizeram sentir. Cantou músicas com mensagens subliminares, outras com mensagens tão directas que se tornou impossível manter a calma. “Apesar de você/ amanhã há-se ser outro dia”. E essa mensagem, muito mais política que sentimental, seguida de “Como vai proibir/ Quando o galo insistir/ em cantar? (…) Quando chegar o momento/ esse meu sofrimento/ Vou cobrar com juros. Juro!” ganha uma força que só uma entidade Maior, dessas que obedece mais à Natureza que aos Deuses e imperfeitas religiões, pode ter. A emoção de sentir na pele que os anos passaram mas todas essas intervenções de Buarque ainda fazem falta. E são actuais. Bethânia provavelmente nem imagina, nem nunca imaginará, o quão forte batem aquelas músicas, aqueles versos e aquela sua interpretação singular de frases que relembram uma ditadura que devia estar tão longe mas na realidade espreita em todos os cantos e esquinas. De “cálice” não preciso nem alongar, basta dizer que “De que me vale ser filho da santa?/ Melhor seria ser filho da outra (…) De muito gorda a porca já não anda/ de muito usada a faca já não corta”. E é o que os portugueses sentem. Filhos da santa, no meio de tantos políticos filhos da outra. E são esses políticos que nos conduzem à desgraça social e ao muro que está já ali à frente. E estamos todos à espera da “gota d’àgua”. Aguardamos a desatenção que provoque no Povo a gota d’àgua e as mudanças ocorram finalmente. A segunda parte do show trouxe os problemas técnicos, a interrupção e o reencontro de Bethânia com a concentração máxima. Cantou duas canções do novo CD: Casablanca e Fado. Seguiram-se canções românticas e o pedido “Quero ficar no teu corpo/ feito tatuagem…” como se algum dos seus súbditos tivesse outra opção que não gravar este concerto como um poema sincero e único. Pessoal e intransmissível por palavras, som ou mesmo vídeo. Cada concerto de Bethânia é único e irrepetível mesmo quando faz 2 bis e no fim, alegre e divina vem dizer: “Viver e não ter a vergonha de ser Feliz…”. Eu sou mais que um fã. Sou seguidor. Eu que nego doutrinas e pensamentos alheios, acho que Bethânia é arte da raiz dos cabelos à ponta dos pés. Vale cada cêntimo que ganha. Vale todas as homenagens e toda a atenção. Viver no seu tempo é um privilégio. E aos 29 anos tê-la assistido 6 vezes em 7 anos é mais que um sonho. Para mim, seu fã desde os tempos em que sonhava com um tecto por onde a água não entrasse, ou ainda do tempo em que estava num colégio de freiras sem esperança no futuro, vê-la a 2 metros de distância chega. E é tanto que demoro a processar… 

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