Ensaio sobre despertar penas

Há muito que queria escrever sobre o terrível vício das pessoas que tendo liberdade para escolher os seus próprios horários dão o pior de si para conseguir, por exemplo, trabalhar um fim de semana ou num feriado. Organizam wokshops e até cursos nesses dias só para ter (mais) um motivo de lamentações e quiçá lágrimas. É interessante perceber que o dia tem 24 horas, a semana 5 dias úteis e essas pessoas usam horários trocados, dias aparentemente inesperados, para estar a organizar coisas ou para aparecer no local de trabalho. É ver circular pelos corredores e pelos gabinetes a pena. Pena por sairem sempre tão tarde, pena por estarem por aí à noite ou no fim de semana. Pois para mim, que sou mamífero e tenho poucas penas, fica por esclarecer que raio de tara é esta de chegar ás 11, sair ás 20 e achar que se trabalha mais horas do que as pessoas que cumprem os seus horários das 9 ás 18. Façam-se as contam e comparem-se as horas que cada um permanece nas suas funções. Pasme-se! Quem cumpre um horário ortodoxo tem mais horas de estadia do que os que se limitam a automutilar-se. Mas claro que sempre se finge esquecer aquilo que se chama “trabalho útil”. Pouco interessa se as pessoas passam 24 horas por dia a dormir nos seus escritórios ou se não tem fins de semana para descansar. Ao fim do dia o que realmente interessa é a produtividade. Afinal o que vale o trabalho de cada pessoa? Quanto dessas horas gastas no local de trabalho se concretiza em algo palpável? Provavelmente pouco. Então nada como fazer valer o jeito galináceo e despertar penas.  Viver de penas. Deitar-se com penas e levantar-se ainda com mais penas. É um mecanismo de ataque cada vez mais perigoso. Sim, um mecanismo de ataque porque a pena é uma imposição que se sobrepõe ao mérito e à capacidade. É ver essas pessoas crescerem nas estruturas empresariais do estado, nas universidades e nos institutos. Essas pessoas que não cumprem objectivos por incapacidade e se dedicam a imaginar formas diabólicas de vitimização. Despertam penas onde pedras deviam estar guardadas. E se de penas vivem, de cabidela morrem. Sentem o cheiro avinagrado do fim, a cor escura do alimento e o calor do tacho onde fervem em lume brando. A alquimia, ao invés de converter tudo o que fazem em ouro, traz alimento ao sistema. Tudo bem cozinhado em sangue, tantas vezes cru. Sabe a ferro e a fogo… São pessoas que encontramos em todo o lado. Em todas as funções e nada mais fazem senão tentar crescer despertando penas. E por vezes quase conseguem convencer-me. Mas de vez em quando lá sou obrigado a acordar. É que essas pessoas são extremamente perigosas e não sentem qualquer pudor em prejudicar vários para que, coitadas, possam despertar um pouco mais de pena. Vai sendo tempo de afastar de vez estas galinhas e estes galos que cantam de alto. Cagam tudo por onde andam e são tão estupidazinhas, as galinhas! Assim, vou sobrevivendo entre dias que se arrastam e tudo o que vejo, vou guardando para memórias futuras. Hoje e amanhã estarei numa formação. Marcada por mais uma dessas galinhas, estupidazinhas que tentam despertar penas quando a única coisa a lamentar é ter de conviver com elas! Não havia necessidade de o fazer, de obrigar pessoas a estarem no dia de feriado na faculdade. Mas o que fazer? Assim deu-me um motivo para despertar pena nas pessoas. Mas ao invés, rasgo o guião e digo: mas que raio, haveria mesmo necessidade? Em 2 minutos percebo que não. Enfim, vivemos num grande aviário. Pena é que por todo o lado as galinhas se deixem amontoar! Fica o poema da sempre lúcida Amália Rodrigues: http://www.amaliarodrigues.lisbon52.com/Versos/335_Gafanhotos.htm

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