Ensaio sobre gestão pública

Não sei porque existe esta moda de viver iludido. Não acredito, não quero acreditar, que uma sociedade com acesso a informação cada vez mais disponível ao som de um clique, continue a viver na ilusão de que o individual se pode sobrepôr ao colectivo. É impressionante a quantidade de gente desinformada ou que apenas prefere viver com a cabeça enterrada na areia. Pois eu bem evito. Fujo da política e da gordura sebosa e nojenta dos que nela se refugiam só para crescer. E como crescem. Crescem mais que o Mundo e ultrapassam todas as metas e todas as fronteiras. Usam e abusam do poder para ter ainda mais poder. E como se ainda não bastasse, procuram trabalhar pouco. Quanto menos se trabalha, mais se ganha e mais se manda. Assim, a vergonha é zero. E a revolta é pouca. Eles, que eu não tenho espaço para enumerar, conseguem lugares de destaque na hierarquia de gestão do Estado. E é interessante ver como a sua ousadia vai tão longe que a meta nunca parece estar à vista. Esta semana vi um antigo gestor de uma empresa pública à porta do tribunal a dizer: ”… na minha empresa…”. E isto diz tudo acerca do que é a gestão pública em Portugal. As empresas públicas, mal passam a ter gestores, são vendidas a preço zero. Aliás, nós ainda pagamos para que estes senhores aceitem estas “suas” empresas. Oferecemos todas. Damos liberdade para que ponham e disponham dos dinheiros públicos aparentemente ilimitados. Eles nomeiam. Eles contraem empréstimos. Eles assinam de cruz por não precisarem ler. Eles aceitam distribuir dividendos mesmo que isso acumule dívidas. Alguém há-de pagar. E os portugueses são um povo tão “pacífico” que até lhes oferece ordenados milionários para aceitarem um cheque em branco em nome de uma empresa pública… Acredito que seja muito complicado gerir uma empresa. Admito que deve dar muito trabalho decidir bem e ponderadamente. Mas mais que tudo isto, dá muito trabalho ser honesto. Muito mais. Incomparavelmente mais trabalho. É preciso ter muita força para não cair na tentação de pôr as mãos nos bens alheios. O que mais me custa é sentir que este clima de impunidade se vai manter para sempre. Eles vão à televisão dizer que a empresa “deles” era bem gerida e nenhum jornalista, nenhuma pessoa, nenhum dirigente político é capaz de o chamar e lhe dizer o que alguns portugueses sentem. Eu gosto de trabalhar e os momentos mais infelizes da minha vida estão associados a alturas em que estava completamente desocupado. Desorientado e sem nada para fazer. Mas há uma coisa que não suporto. Trabalhar para em vez de trabalhar com. Eu trabalho com as pessoas. Trabalho ao lado. Abaixo, acima ou ao mesmo nível. Mas sempre me recusei trabalhar para alguém no sentido de ser escravizado pelo dinheiro ou pela necessidade. Alturas existiram na minha vida, em que o simples amanhecer trazia a revolta de sentir as algemas que nos prendem ao que nos mantém insatisfeitos! Hoje vivo insatisfeito com o estado do meu país. A gestão pública é o acontecimento mais criminoso da nossa democracia e a impunidade impera onde nem os Deuses conseguem chegar. A razão de tão pouco alarido é sempre a mesma: todos invejam no silêncio o estrondo do sucesso. Mas isso não é sucesso. É roubo. É crime. É desumano. E esta gestão pública que apenas assume publicamente as dívidas, e se faz no universo particular da família partidária e dos amigos, vai durar. Vai durar tanto quanto pode, tanto quanto a sociedade quiser. Se é verdade que sozinhos não mudamos o mundo, não é menos verdade que basta uma ovelha não seguir o rebanho, e quem sabe se algo se muda. Os cães em vez de morderem vão ter de mudar um pouco a direcção…  

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