Ensaio sobre trabalho

Quando estamos atolhados em trabalho, há uma certa tendência para aparecer mais trabalho. E com isso, há a certeza de que os próximos tempos exigem uma dedicação e atenção cuidada. Não tenho tido tempo sequer para ver televisão ou assistir as notícias. Mas se lamento estar desinformado, não posso lamentar a santa ignorância de não saber muito bem o que se passa na assembleia da república, nos casos freeport ou nos casos de face oculta… É como tirar uns dias de férias da obrigação social de estar atento e pensativo. Neste momento há muito para fazer, pouco tempo para executar e uma necessidade enorme de ausência deste ambiente pouco democrático que paira em todos os cantos e esquinas. É lamentável o sentimento derrotista que todos os dias nos impingem na comunicação social ou nos locais de decisão política. É tanta dispersão, tanta corrupção, tanta estupidez e burrice, que nos tentam cansar. A maneira mais fácil de nos derrotar, Homens de coragem e força, é pelo cansaço. O esforço sobre humano que nos é pedido diariamente, não pesa. Não pesa a tristeza de ver o país definhar aos caprichos de homens sem escrúpulos. O que realmente cansa é a própria limitação física. Não somos fonte de energia, mas antes pilhas que vão perdendo potência e ganhando ferrugem. Os anos passam e com eles o cansaço vai-se acumulando… A única maneira de sobreviver é ver de dentro para fora. Exigir que o corpo cumpra as promessas de nos manter de pé. Cabeça erguida. Sem cansaços, sem tristezas. Teremos toda a eternidade para descansar. Gastamos já muito tempo da nossa vida a dormir. Que desperdício… Uma das mais preocupantes constatações que vou fazendo, é que a nossa sociedade pressiona de tal forma, que nos nossos dias as crianças já nascem cansadas. Não brincam como deviam. Não são irrequietas sem serem hiperactivas. Não são traquinas sem serem problemáticos. Não têm diferentes capacidades de aprendizagem, mas atrasos. E andam sempre cansados. Os adolescentes vivem cansados. Os jovens, andam sempre cansados. Os adultos caminham como zombies e estão cansados. Os velhos, mesmo que reformados e sentados ao sol, vivem cansados. Todos estão cansados. Mesmo os que vivem vidas priviligiadas. Os que fazem o que sempre quiseram. Os que acordam diariamente em lençóis de seda e têm sempre o que comer no frigorífico. Os que ganham dinheiro, ainda que não o tenham por má gestão ou opção de vida. Os que têm uma família e pessoas que os adoram… Esses também andam sempre cansados. Talvez seja pela benção que sobre eles recaí. Ora, por estes dias ando com muito trabalho. Muito mesmo. E todos os dias coisas novas aparecem na minha mesa. Pois bem. Serão feitas. Serão cumpridos os prazos e o cansaço será sempre colocado em stand-by. Até à eternidade… Dias há em que se abate sobre mim uma certa desilusão pelos resultados escassos que vão sendo produzidos apesar do imenso trabalho. Mas sempre me lembro que algures, não muito longe, há pessoas que trabalham de sol a sol apenas para comer. Há quem viva em condições absolutamente impensáveis. Em condições que até Deus, se existir, duvida. Nós, os priviligiados, temos apenas de arregaçar as mangas e fazer o que nos pedem. O que nos dá o privilégio de viver bem. Comer bem. Ter momentos de lazer e pessoas que nos preenchem. O preço a pagar pela felicidade é o trabalho. E o que é o trabalho senão a vida? Um dia deixamos de estar e teremos toda a eternidade para descansar…

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