Ensaio sobre um estímulo

Quando os dias não nos correm como queremos, nada como ter um fim de semana descontraído sem responsabilidades e acima de tudo um fim de semana onde se recordam dias, esses sim de miséria. Apesar de o meu irmão ter estado 3 dias comigo em virtude de mais problemas, fez-me bem porque me foi lembrando tempos antigos. Tão antigos quanto a minha idade e as minhas memórias. Esses sim eram dias problemáticos que corriam muito mal. Não havia comida na mesa nem nos faltavam discussões, chuva dentro de casa e até ratos. Àgua canalizada não havia… A rua fervilhava de prostitutas, bêbados e miúdos perdidos que não sabiam o que fazer das horas e dos dias. O chão era de madeira velha e o corrimão não existia deixando 2 lances de escadas a céu aberto. A queda era grande e desamparada… Que me lembre caí umas 3 vezes. A comida era cozinhada num pequeno “Petromax”. Uma botija pequena acoplada a um bico de gás, uma panela a ferver, e um acidente que me deixou marcas hoje quase invisível. A mesma botija alumiava a sala onde dormíamos. A luz eléctrica falhava constantemente. E usavamos um sistema de gás com um pano embebido em algo. Ficava no ar um cheiro intenso que não esqueci nunca. Ficávamos ali. A discutir coisas fúteis. Eu apenas observava porque era muito novo e não tinha a noção de como eram dias problemáticos para os meus irmãos mais velhos a chegar à adolescência. Tomar banho era de bacia. E à vez. Uma das minhas irmãs era muito doente e passava a vida nos hospitais com epilepsia. Tinha ataques frequentes que nunca sabíamos se era físico ou se apenas queria ter os holofotes e a bolacha que sobrava… Éramos cruéis mas ao mesmo tempo inocentes. Para nós não havia problema nenhum. Se comíamos apenas um prato de sopa, era um bom dia. Se não tínhamos electricidade, era um bom dia para discutir. Se era preciso ir abastecer com àgua os baldes da casa, era um fim de dia com um passeio até ao chafariz ou à fonte. Não nos queixávamos muito nem havia desânimo. Só vontade de continuar em frente. Não tínhamos prendas ou doces. Não havia roupa nova ou um único electrodoméstico para lá da televisão a preto e branco e frigorífico velho. Provavelmente dado por alguém em segunda mão. Em 2 quartos e uma sala acumulavam-se 7 pessoas. Ás vezes 8 ou 9. Ou mais. E nem por isso ríamos e chorávamos. Haviam 4 estações a cada 10 minutos. Um dia solarengo e feliz, um dia chuvoso, um dia primaveril e um dia sombrio. Havia de tudo. Mas não me lembro de uma única vez ouvir alguém lamentar-se… A exigência era tão baixa que vista a esta distância parece assustadora. Por estes dias recordei isto e muito mais. Os berros frenéticos. A violência física e verbal que nos tornou muito mais humanos, menos distantes da Terra. O meu irmão fez-me recordar um tempo em que não haviam semanas más, nem notícias más. Eram só semanas. Eram só notícias. E essas não são boas nem más. São o que têm de ser. E o que tem de ser, tem muita força. E nenhum fardo é pesado demais. Nenhum acontecimento é suficientemente intenso para nos destruir. Só a nossa própria morte. O resto é perder tempo e gastar forças ao redor. Sem chegar ao centro da questão. Amanhã começa uma nova semana e independentemente do que possam dizer ou fazer, estou pronto para o que der e vier. Todos os obstáculos são um estímulo e não uma condenação. Não há muro suficientemente alto que me impeça de saltar nem percalço suficientemente forte que seja definitivo. Só a Morte é um ponto final. O resto são dúvidas e exclamações. Esta semana que hoje termina foi de dúvidas. Serviu-me de estímulo para a próxima que será de exclamações. E se não for, será um estímulo até que assim seja!

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