Ensaio sobre Rui Pedro

Chocam-me muito facilmente os casos que envolvem crianças. E este em especial porque olhar aquela mãe é lembrar a todos os momentos o sofrimento de não se saber o que aconteceu a um filho. Muito pior que a incerteza, é a incapacidade para absorver injustiças tão graves. Pouco me interessa se o arguido, ontem absolvido, foi ou não culpado pelo rapto do miúdo. Eu quero é saber, afinal o que aconteceu!! Também me causa muito constrangimento perceber que a nossa justiça premeia o silêncio e a inoperância ao invés de cuidar dos interesses das suas crianças. Esta investigação, se é que existiu, revelou lacunas gravíssimas do nosso sistema judicial. Primeiro deixa-se que os processos se arrastem por gavetas. Depois esperam-se mais uns anos por pistas que não se sabe bem de onde poderão cair. Quando a esperança de que as coisas se resolvam por si se esfuma, o melhor é então pegar no processo a sério. O grave problema é que quando é tarde demais, não há nada a fazer. E neste caso, com muita pena minha, acredito que pouco pode ser feito. As testemunhas terão pouca validade já que o tempo de espera pela investigação séria apaga qualquer possibilidade de se descobrir a agulha no meio do palheiro. E há muita palha nestes processos. Muitas convicções, muita intuição, muita fé mas pouca seriedade. Haverão milhares de relatórios e euros gastos, mas de concreto pouco pode ser analisado. E são precisos 14 anos para isto… As famílias, de vítimas e acusados, vão alimentando incertezas e vivendo no limite. Nada se resolve a tempo e horas. Os resultados são no mínimo preocupantes e ninguém é responsabilizado por este circo degradante em que está mergulhada a nossa justiça. Este julgamento foi uma verdadeira perda de tempo. E o veredicto diz isso mesmo. É preciso ter certezas. Provas seguras recolhidas e tratadas no tempo e na hora certa. Com 14 anos de diferença entre o dia do rapto e o julgamento, só um milagre ou provas novas muito objectivas podem-nos levar a tirar uma conclusão. Eu tenho a convicção de que o arguido sabe mais do que disse. Também não é difícil já que ele não disse nada. E por isso foi premiado com uma investigação insuficiente e uma acusação fraca. E a minha questão é: e quem se responsabiliza pelos milhares de euros gastos no julgamento e na investigação que foi conduzida, escandalosamente, de uma maneira leviana? É que se este julgamento tivesse sido feito um par de anos após o desaparecimento, percebia-se mas agora?? Nesta altura?? Que raio se passa na cabeça das pessoas que investigam estes desaparecimentos? Qual é a verdadeira motivação? Fico sempre com este sabor amargo a fraude. A verdade parece ser escorregadia e perder-se por entre cada poro. E a nossa justiça tem muitos poros. Muitos buracos e muitas saídas. O que realmente fica no ar é a suspeição de que mesmo depois deste caso tudo permanecerá igual. Menos as famílias. Menos aquela mãe que anseia pela verdade e justiça. A vida humana tem um valor incalculável. E quando se perde, no espaço, no tempo ou simplesmente para sempre, a única coisa que nos liberta é a verdade. Toda. Do início ao fim. De trás para a frente e dos lados para os fundos. De dentro para fora. Dos pés à cabeça. O que esta mãe quer é a verdade. E nisso ela encontra a simpatia de todas as pessoas de bem. Todos queremos saber o que aconteceu ao Rui Pedro. Não pelo mórbido gosto pelas vidas alheias. Mas antes pelo dever cívico de nos importarmos realmente com as nossas crianças. Todos os casos com crianças me chocam porque a indiferença com que o nosso sistema trata esses casos é suficiente para eu dizer que é um crime contra a Humanidade que merecia a intervenção das mais altas patentes do Estado. Afinal o que é o Estado senão o Povo?? E não me digam que o Povo não quer responsabilidade e vontade de mudar esta onde de “casos Rui Pedro”.

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