Ensaio sobre a estreia

Hoje foi a minha estreia num órgão com algum poder político sobre o futuro de uma instituição. E que estreia… Não fiz por merecer destaque nem precisei de puxar assunto para argumentar. Quando a inoperância abunda e o desbaratar de recursos e de ideias é uma constante, torna-se muito fácil discutir. Argumentar sem perder totalmente a cabeça mesmo quando se discute o sexo dos anjos e se circula não em torno de uma ideia mas de um ideal. A fantasia e o poder corrompem. E o pior é saber que a inutilidade de pensamento é critério para se subir na carreira académica, e acima de tudo, para conquistar realmente o poder de decisão. Eu controlei-me tanto quanto podia. Mas chega uma hora em que não dá mais. A cabeça dá um nó e o pensamento corre para a língua. Antes mesmo de compreender o que estou a fazer, já começa a argumentação. Não é fácil fazer-me parar nem fazer passar por debaixo da mesa um papel que eu não li e que terei de assinar. Assim, foi uma estreia que não estava à espera. Debate quente entre a pessoa de maior grau e maior destaque de uma academia, e um novo miúdo acabado de chegar. Bem sei que fui ardendo em lume brando sem preocupação. E de facto não estou nem um pouco ralado com o futuro. É incerto demais. Não sei se lá chegarei e nem me passa pela cabeça imaginar quem estará na cadeira do poder quando precisar. Na vida há dois caminhos: o certo e o errado. O intermédio é algo indefinido que nos arrasta por caminhos duvidosos. É concerteza a melhor maneira para ascender social e profissionalmente. Mas quanto a mim, chega. Há muito desisti de compreender a ignorância, a usurpação, a limitação da liberdade e a libertinagem. Não controlo o que penso porque seria muito violento. E todos os dias somos violentados sem dó nem piedade. Pisados. Humilhados. E todos os dias nos lembram de que quem tem o poder, mama. Literalmente: mama. Não só manda como mama. O resto, é resto. Pois bem, para o bem e para o mal, não há como dizer: estou aqui e não vou tolerar isso. O meu dia-a-dia tem pouco de humilhação ou falsidade. Não tem nada de meio termo entre o certo e o errado. Há coisas que eu próprio faço de muito errado. Que me parecem certas e depois são muito erradas. Mas isso é inerente ao processo de decidir e Viver… Ninguém pode esperar que me esconda a somar vantagens, tirando partido do afundar do barco. Eu quero seguir. Tenho olhos postos no futuro e não o abandono em detrimento de nada nem de ninguém. Há quem confunda uma filosofia de vida, objectivos e vontade de progredir com ambição. E esse é o maior erro. É que a ambição leva-as a fazer e dizer coisas horríveis e esquecem-se de serem fiéis a si e ao que pretendem. Pois eu só quero ser feliz! Acima de tudo. E logo depois quero que todos tenham igualdade de oportunidades. É que eu sei muito bem o que é não tê-las. A minha grande oportunidade na Vida foi a condenação dos meus irmãos mais velhos. E é triste que assim seja. A humildade de reconhecer que não sou o mais brilhante de todos, apenas que tive a sorte do acaso me fazer nascer como o mais novo de seis, recorda-me todos os dias da minha vida que nem todos podem ter uma vida à sua medida. A vida que temos é criada por inúmeros factores. E cabe a cada um de nós melhorar não só as nossas hipóteses, mas acima de tudo defender aqueles que não tendo as mesmas oportunidades, podem esforçar-se e ver uma luz que os conduza ao que mais desejam. O lado da felicidade também está aí. Na conquista de pequenos rasgos de oportunidade para os outros. Hoje foi a minha estreia. E que estreia! Pode ser que apaguem as luzes. O mais importante é saber que não me calarei. Mesmo sem luz, sem ser visto, a minha voz vai ecoar enquanto viver. Não falo em forças, porque essas se algum dia me faltarem, recordo-me de quem defendo, e logo renasce a exaltação…

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