Ensaio sobre fases de muito trabalho

Quando ando muito ocupado cai em mim uma certa melancolia quase imperceptível. Pelo menos é assim que a imagino embora sinta uma nostalgia que nunca entendi muito bem. Talvez seja por estar com as defesas em baixo ou só uma breve distracção comum quando numa vida quase perfeita não perdemos tempo a lamentar o passado ou o futuro. E o presente, é para viver. Eu vivo muito bem o meu presente. Não lamento as horas gastas, nem a profissão que me calhou exercer. Vivo-a muito bem e sem cuidados! Gosto do que faço embora por vezes seja precisa uma energia que parece faltar. Por estes dias faltam-me forças e sobram-me lembranças… E como é bom ter lembranças. Nem tudo é mau, nem tudo é bom. A ténue linha que separa o comum do excedente, não tem de ser uma fronteira mas antes um desafio. Por estes dias a vida corre a uma velocidade vertiginosa. O trabalho acumula-se em ficheiros word e powerpoints. Os e-mails exigem resposta! E em tudo o que é preciso fazer, a urgência está estampada como uma obrigação. E nada é secreto, nada é inventado ou original. Só exigente! Esta é uma boa fase, de muito trabalho. Mas antes assim que arrastar os dias pelo sofá ou pela rede onde só peixe fica preso. Essa rede dos tempos modernos que não requer trabalho ou pensamento, só esvaziamento. Sobre ela escreverei um destes dias. Essa moda de hoje e certeza de amanhã que vai consumindo toda a capacidade criativa e toda a liberdade do pensamento. Eu próprio aderi a ela e escrevo num blog. Frequento outros blogs. Pesquiso assuntos que me interessam individualmente ou à sociedade no geral. Mas sempre deixo um espaço suficientemente amplo para caberem as minhas próprias conclusões. Por mais cansado que ande, por mais trabalho que possa ter, há sempre um momento do meu dia ou da minha noite em que penso sobre tudo e sobre nada. É o meu hobby. Depois da leitura, o exercício da liberdade e o pensamento são os meus passatempos preferidos. Sempre vi o cérebro como uma espécie de músculo que necessita de muito treino e muito uso. Na leitura ganha-se vocabulário, visão, experiências que estão para lá da possibilidade imediata das nossas vidas. Ganham-se simpatias e absorve-se conhecimento. Na minha nostalgia absurda que acompanha fases de muito trabalho, tento sempre distrair-me com os meus próprios pensamentos para evitar que a memória me traga coisas que não quero. Fico muito mais sensível. Muito mais vulnerável a recaídas. Simpatias onde só devia existir desprezo. E pena onde a responsabilização é obrigatória… Um dia ainda entenderei porque chega a saudade (sabe-se lá de quê, ou de quem…) e a nostalgia nestas fases de muito trabalho. De onde virá este estranho sentimento de cansaço misturado com melancolia? Talvez seja um efeito colateral de uma pressão que sei existir e que não vai aliviar. O que me vale, e sempre valerá, é que tenho sempre a absoluta certeza de que sou um priviligiado que não tem autoridade moral para se queixar. Estes dias passam depressa. E amanhã, quando menos se esperar, estou já livre de qualquer pressão.  E esta fase de muito trabalho vai acabar. Muito depressa. E depois dessa fase passar, outra virá. E depois dessa, outra. E é assim que tem de ser. A cada fase que termina, outra começa.  Afinal, só se vive uma vez. E viver dá muito trabalho. Muito mais do que se pensa! Há quem viva para as malas, os sapatos de marca, ou a roupa cara. Para mim a única marca que interessa é a que fica. A obra que é feita e o modo como foi construída. As bases têm de ser sólidas. E as fases de muito trabalho são o cimento que sustenta a obra. A casa habita em nós…

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