Ensaio sobre ser piegas

Não acho que sejamos um povo livre de pieguices. Pelo contrário. É bem verdade que o espírito saudosista e passivo nos leva por vezes a lamentar coisas que são incrivelmente banais. Mas se é verdade que somos piegas sem motivo, não é tolerável existir um primeiro-ministro de um país civilizado que perante as duras medidas que toma em desfavor do seu povo, não aceita as lamentações mais que compreensíveis de quem faz mais do que pode. Mais do que deve. E eu, mais que os futuristas do costume, pessimistas e radicais do pouco, sinto-me confortável para criticar. É que eu comecei pelo normal e lógico: o benefício da dúvida. Não comecei pela crítica barata antes do tempo da obra, nem pela destruição antes do início da construcção! Tenho ainda por certo que as dívidas pagam-se. Caro. E que não existem dívidas socialistas, sociais democratas ou políticas. O País, para o bem e para o mal, são as pessoas. E se o País está endividado, então estamos todos condenados ao pagamento. E contra factos não há argumentos. Se um País é gente, é dessa mesma gente a responsabilidade de vigiar de perto tudo o que se faz em nome da sua bandeira. O Mundo não é um lugar perfeito. E nunca será enquanto Homens existirem… Dito isto, e depois deste bocado de quase aproximação ao que vem sendo o discurso austero de quem exige a responsabilização individual e colectiva perante o que são autênticos roubos e crimes contra a Humanidade, tenho de comentar o mau gosto do Sr. Primeiro Ministro que nos considera piegas! Começo pois por dizer que podemos queixar-nos de muita coisa sem motivo, mas a perda de dias de descanso e de direitos adquiridos é motivo mais do que suficiente para gritar. Manifestar. Sair para a rua e verter pelo chão todo o patriotismo. Aqui ninguém é suficientemente idiota para acreditar que basta trabalhar de sol a sol para pagar as dívidas. Enquanto a corrupção e a impunidade não terminar, nunca sairemos do buraco cada vez mais fundo em que nos metem. Depois devo dizer que infelizmente temos uns políticos de merda. Literalmente. Não fazem a mais pequena ideia de como é o dia-a-dia das pessoas. Há quem se levante diariamente de madrugada para trabalhar e chegue a casa, noite escura. Há quem tenha instalada uma tal rotina que qualquer dia de folga que falte, é um sacrífico. Um sacrifício enorme… Ainda há quem tenha de percorrer a pé quilómetros e quilómetros para ter um meio de transporte. E se o tem, pode muito bem ser o começo do dia, horas antes do trabalho. Quanto a mim, que muito me queixo da falta deste carnaval e de outros feriados, devo dizer que a minha vida é o que é mas servirá de exemplo. Durante anos caminhei quilómetros para frequentar a escola. Saía de casa ás 7 e só chegava depois das 19 e sempre cansadíssimo. Cresci assim. Á chuva e ao vento. E não me lamentava muito embora contasse os dias para os feriados e os dias de descanso! E todos os dias de descanso eram poucos. E quando andava na faculdade, ia todos os dias a pé para a estação de comboio. Mais uns quilómetros para cada lado. Saía ás 7 e era raro chegar antes 19. Muito cansativo! Qualquer feriado me fazia falta. Qualquer ponte era óptima e sabia a Verão! Férias e descanso. E se hoje talvez não me é assim tão difícil perder estes feriados, sou incapaz de esquecer os anos de sacrifício que ultrapassei para chegar aqui. E só por isso chego à conclusão que não sou piegas nem nunca serei. O motivo é simples: já me saiu da pele suor que jamais esquecerei. É esse esforço e esse trabalho que faz falta aos nossos políticos. Eles sim, uns verdadeiros príncipes de uma burguesia há muito esquecida. Chegam aos 40 anos sem Nunca terem tido um único momento de sacrifício. Tudo lhes é dado de mão esticada. E gerem milhões. E ganham licenciaturas. E têm currículos que falam por si… Acho que os portugueses são piegas em muita coisa, mas jamais serão quando se lamentam de não terem líderes à sua altura. Muito embora, a culpa, se culpa existe, esteja nas pessoas. É preciso mudar. É preciso. É…

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