Ensaio sobre o desprezo

Lá fora está um frio de rachar. Não chove e a neve prometida parece ter adiado o encontro comigo. Tudo bem. Eu tenho para mim que em dias e alturas como esta, em que a crise toma conta do nosso dia-a-dia, o melhor é mesmo manter o corpo quente e a alma suficientemente atenta para esperar pela neve. Pelo Tempo que nos prometeram e nunca vai ser cumprido… Tudo bem. Eu vivo bem com as promessas que são ditas e as juras feitas apenas para ser quebradas. É a sina de quem vive atento e forte. Ouve-se muito. Lê-se muito. Aprende-se a desprezar quase tudo, quase toda a gente. O desprezo é a salvação da sanidade mental e a melhor defesa aos ataques sociais, económicos e políticos do nosso dia-a-dia. A vida flui naturalmente e sem importância aparente. Somos insignificantes na medida da sua grandeza e por isso qualquer constrangimento, obstáculo, mentira, usurpação, mágoa, tristeza, traição… deve ser encarada como um ponto de chegada. À beira do abismo, o passo em frente é a morte certa. O virar a cara, caminhar em segurança entre as ravinas e os contornos do precipício, é um sinal de superior inteligência. Não de superioridade, porque isso é outra coisa muito mais densa e merecedora de um ensaio. Superior inteligência traz no nome a doce certeza de saber gerir o que mais nos atormenta. Os monstros não existem nos armários ou debaixo da cama. Não vivem escondidos na escuridão de becos e nas ruas desertas. Eles estão por aí. No nosso sofá, na nossa mesa, no bar, na rua que irradia luz e esperança. E até nas pessoas que amamos… Não adianta exorcizar, expulsar demónios e querer recomeçar. Uma vez quebrados, os nossos cacos nunca se juntam da mesma maneira. O que se parte, cola-se mas sempre se notará a racha, a nódoa, a marca indelével de outro Tempo que nunca mais voltará. Por ter passado e porque as circunstâncias mudaram. Face a tal desenvolvimento não resta outra coisa senão desprezar. Desprezar como abandono premeditado e simples. Desprezar como sinal de superior inteligência e necessidade de continuar a viver. Ir em frente ou para os lados. Mas ir. Caminhar sem olhar para trás. Evitar a todo o custo o sofrimento alheio e alimentar a autocomiseração. Desprezar como vontade de continuar mesmo que isso signifique mudar de vida, de rumo, de projecto ou de cidade. Desprezar como sinónimo de um novo começo… Assim, o meu desprezo vai reinando sobre vidas alheias. Esquecendo em marés cheias, e vazas o que o coração não apaga. Desprezo o normal, o básico, o inaceitável e inenarrável. Desprezo políticos. Coleccionadores de poder e capitalistas desenfreados. Desprezo tudo o que me aborrece, a má educação, as licenciaturas forjadas, os lugares dados de mão beijada e até as facilidades que só alguns privilegiados têm. Desprezo tudo isto não por nunca ter tido, mas por nunca querer vir a ter. Desprezo este mundo de modas e de consumismo. Desprezo a irresponsabilidade e a vontade de permanecer eternamente adolescente. Desprezo tudo o que seja menos que ter valores e debater-se por eles. Desprezo tudo o que me cansa porque desejo: http://www.youtube.com/watch?v=ql34k-RQvaE

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