Ensaio sobre o que é justo

Por vezes há uma grande confusão na nossa cabeça entre o que é justo e o que é apenas verdade. Talvez seja uma grande injustiça ter de nos ser pronunciada a verdade, sem respeito ou cuidado. Talvez seja injusto ter de ouvir o que deveríamos saber pela boca de outra pessoa. Talvez tudo isto aconteça sem que possamos evitar e a situação, que é por si injusta, fica colada a quem nos diz o que não queremos ouvir. Há no entanto verdades muito mais difíceis para quem diz do que para quem ouve e isso nunca podemos esquecer. A situação que nos parece injusta pode ser consequência da nossa própria incapacidade para digerir e fazer o que tem de ser feito. Não é à toa que existe uma grande diferença entre dizer, fazer e cumprir. Há muitas coisas que digo e não faço. Há coisas que faço e não digo. Mas o mais importante de tudo é cumprir o passar dos minutos, das horas e dos dias com a consciência de que se alguma missão trago na bagagem é a de ser feliz e não armazenar tristezas… Não vejo o mundo cor de rosa porque nunca o vi de outra cor senão a que tem. Não nasci em berço de ouro nem tive a infância que queria ter. Tudo se passa dentro do possível e não há impossíveis mesmo em face da maior tormenta e do maior desafio. A verdade é esta. E não há injustiça no arrebatamento ousado de dizer o que se pensa e o que se quer. Mesmo que nunca se atinja. Mesmo que o sorriso de gozo se rasgue em rostos que esperam a queda. Já caí de muito alto. Já caí muito fundo. E sempre sobrevivi. Com mais cicatrizes, menos feridas, mais traumas, menos traições, mais inimizades, menos amigos… Injusto é ficar fechado quando há tantas chaves que podem abrir a porta. Injusto é ter de gritar para que a distância não se faça sentir, quando aqui ao lado há um mundo inteiro à espera de ouvir. Talvez a verdade nunca seja justa quando tudo o que queremos é evitar o inevitável e não dizer o que todos os dias pensamos. Talvez o futuro não seja justo para o que queremos embora nunca tenhamos trabalhado para isso… O futuro pode ser um caso perdido, mas perdê-lo não pode ser opção. O tempo é escasso. Nada podemos fazer para recuperar os dias passados a chorar mas podemos usá-los para decidir mudá-los. A porta não tem de permanecer fechada nem o canto calado. A tristeza não tem de ser solitária e o mundo, para quem não o conhece, está do lado de fora da janela. Não é preciso muito para o deixar entrar… Talvez seja a vida injusta mas nunca o saberemos ao certo enquanto não formos capazes de ser justos em cada palavra que dizemos. Podemos acusar, se é a nossa vida que julgamos e sobre ela somos soberanos. Juízes da vontade, do passado e dos planos para o futuro. Abdico assim de me alongar sobre o que me leva a dizer exactamente o que penso mesmo que alguém se sinta injustiçado. Tenho que aplicar a minha justiça, não a de outrém. Sobre mim reino eu e sobre a minha vontade paira o meu desejo. Talvez seja eu o injusto ou apenas a verdade demasiado cruel. Talvez seja apenas injusta a situação, mas não fui eu que a criei. O monstro, se monstro há, é alimentado pela inoperância, pela negação, pela soberba de não querer ouvir o que tanto repito. Por palavras, actos e diálogos. A vida não é justa. Aprendi muito cedo. Mas se só nos podemos culpar de nós mesmos, então encontrámos a injustiça… Permanece intacto o mistério. O que os leva a ser injustos dentro da sua própria consciência? Talvez a culpa seja do mundo cor de rosa que não existe e da palete de cores que esconderam. Quanto a mim, não há alternativa, direi o que quero. Sem escolher palavras nem eufemismos. As coisas são como são. Prefiro a fama de injusto, a uma vida com arrependimentos. Só trago na vida um arrependimento. Quase esquecido. O resto, é história…

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