Ensaio sobre esquecimentos

Este fim de semana tem sido atípico. Acordo muito cedo, ligo-me ao computador e trabalho toda a manhã. Almoço tarde e só depois paro um pouco. Não estou a queixar-me, pelo contrário. Estar ocupado, ter um trabalho onde possa mostrar todo o meu profissionalismo e dedicação, é muito importante nesta altura de crise pessoal. Sim, crise pessoal porque a crise económica não é mais que a extensão social do que é a crise de valores. Daí que tenha uma teoria muito concreta e violenta para o que se vê nos corredores do poder e de decisão. Os nossos dias são dias sombrios e de verdadeiro terrorismo psicológico. As pessoas compram, sentem-se valorizadas em euros e nunca pelas acções. As acções que ocupam a mente no quotidiano são as dos mercados de valores e não as acções que expõem o comportamento e a personalidade. A sociedade engorda no verdadeiro sentido da palavra e a fila de espera para entrar na classe económica mais alta vai engrossando sem qualquer pudor ou limite de ambição. Toda a gente quer mais. Não por ter pouco, apenas por querer. Ninguém se dá por satisfeito e contente por ter comida na mesa, as contas pagas diariamente e muita saúde. O que a Vida traz de mais, a mais leva. E a incessante procura ambiciosa de mais, leva a menos felicidade. Vejo com apreensão o futuro. A bolha de oxigénio monetário que mantém viva a sociedade vai sendo cada vez mais curta e sem ela as pessoas não conseguem viver. Pode faltar o Sol, os largos jardins e as cores vivas das flores mas os bens de consumo não. Esses são bens essenciais e imprescindíveis para a felicidade. Não tenho absolutamente nada contra os telemóveis inteligentes, as agendas electrónicas e os cafés cheios de gente. Nada mesmo. O que realmente me questiono, todas as vezes, é se as pessoas se sentem mesmo privilegiadas. É imperativo incutir uma filosofia de gratidão. Não a Deus ou a qualquer outra entidade. Devemos ser gratos a quem nos faz bem em particular e no geral à sociedade. Temos uma obrigação moral de retribuir. Nada é mais violento, para mim, que a ingratidão. Não é que o bem não se distribua sem esperar qualquer retribuição, mas não cai nada bem doá-lo e vê-lo pisado feito pó de estrada. Assim não há caminho que se faça. A partilha de felicidade é muito mais importante que a própria partilha de dinheiro. Há um mínimo de conforto económico, do qual estamos muito longe, mas o verdadeiro motor para a Vida é a felicidade. Ás vezes sinto-me desiludido. Na família, com amigos, com colegas e até com pessoas que se calhar nunca me deram o mais pequeno sinal de que se interessavam em partilhar o que quer que fosse. Ás vezes fico frustado por me sentir usado. Por ter demasiado influência ou poder de decisão quando só queria recostar-me no meu canto. É difícil tratar sempre alguém bem quando nos relegam sucessivamente para planos tão secundários que nem aparecemos na ficha técnica. Os papéis principais estão desde logo atribuídos a pessoas sem escrúpulos, desonestas, fingidas e até usurpadoras de ideias e de status. Não estou triste, hoje. Mas apeteceu-me escrever sobre isto. Há uma certa deselegância no modo como por vezes tratamos quem nos faz tanto bem. Não quero com isto dizer que se deseje qualquer mal a quem se esquece de sorrir ao pronunciar o nome. Pelo contrário. Já tive muitos sonhos e muitos projectos em conjunto. Já tive até uma casa e uma relação que pensei ser para a Vida inteira. E tudo o que restou não foram más recordações ou rancores. Foi apenas um esquecimento. Já tive amizades fortíssimas com promessa de eternidade e quando terminaram não ficaram sombras. Essas passam, qual nuvem espelhada na Terra, e ficaram memórias. Eu sei o bem que fiz, o mal que fiz e o que ficou por dizer não me atrapalha. A minha vida é assim mesmo. Um livro de esquecimento. Esqueço sem apagar ou deletar as emoções e as sensações. Tudo muda de um dia para o outro. Os grandes amores, as grandes amizades, as grandes ligações. O que não mudam jamais são os meus princípios. Esqueço quase tudo e não guardo nada excepto a grande busca: um dia o que penso irá refletir-se na minha postura!

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