Ensaio sobre o recomeço

Nem todos os dias são dias felizes. Mas todos os dias são bons dias para fazer deles dias felizes. Festeja-se tanta coisa inútil, que as pequenas vitórias ficam sempre perdidas por entre aniversários e datas ostracizadas pela quase insignificância aparente. Um grande momento é, nos dias que correm, uma grande vitória. Flashes e fotos. Palmas e ainda mais palmas se possível for. Festeja-se o aniverário, a conquista de um lugar ao sol e a vitória económica do desespero anímico. Muitas vezes esquecemos o recomeço. A data que marca o início de uma fase nova. O dia em que a nossa vida se tornou realmente nossa e a decisão irreversível de partir pedra e fazer um novo caminho. A novidade e o risco passam a ser o ponto de partida e não há mais onde chegar. Não há metas nem destinos. Só o leve caminhar com os pés bem assentes no chão. Recuso-me a aceitar que envelheci um ano e isso é motivo de festejo. Raios. O tempo de um ano passou e eu gastei-o. Ainda que me tenha enriquecido gastei-o. Estou irremediavelmente mais próximo do fim. E ninguém se esquece de festejar o aniversário. Então a grande questão é: porque se esquecem de festejar o recomeço? Acho que na verdade não é tanto esquecimento. Será mais não poder fazê-lo sem cair na hipocrisia. É que a esmagadora maioria das pessoas nunca começa uma nova fase. Quando muito, recicla a anterior. Aproveita o pode por achar um desperdício mandar tudo para o lixo. O que fica por explicar é se os sentimentos podem ser realmente reciclados. Na minha perspectiva, é uma ilusão da alma e um vício do corpo. Reciclar sentimentos é para quem tem pouco para sentir ou para quem se sente incapaz de criar laços verdadeiramente fortes. O medo limita a Vida e o comodismo deixa marcas muito profundas. Assim, hoje festejo um ano desde o começo de uma nova etapa para mim. Não há muito mais para dizer. Só isso. É um dia especial porque deixei de reciclar velhos papéis e fotografias aparentemente perfeitas. Deitei tudo para dentro de um baú ou para fora da minha vida. Apaguei. Deletei. Transformei anos de expectativa e espera num novo caminho. Foi difícil. Penoso. Choroso. Mas durou apenas o tempo necessário para que o luto pudesse converter-se em esperança. Dediquei-me ao que realmente interessava sem medo e sem barreiras. Atirei-me de cabeça sobre o abismo sem receio de me arrepender. Não reciclei mais nada. Deixei de o fazer. O recomeço veio a mostrar-me novas cores e novas alegrias. Uma nova perspectiva sobre o mundo e as pessoas. Sobre o trabalho. Sobre a família e até sobre mim próprio. O meu futuro deixou de meter medo porque tive um ano absurdamente complicado. Mas este foi o caminho que talhei. Saltei muros e janelas. Fugi pelas portas. Gritei em ouvidos que diminuiam a potência do meu som. Apaixonei-me pela Vida abençoada que sempre digo ter. Apaixonei-me mesmo. E só isso vale a pena festejar. Tomar um bom duche, passar um bom perfume e ir jantar por aí. O meu recomeço foi vitorioso porque foi meu. Foi autenticamente meu. Não foi uma adaptação barata ou uma mudança de agrado. Envelheci nesse ano e aproximei-me mais do fim. Não tenho dúvida nenhuma. Mas neste ano que passou aproximei-me muito mais de mim do que esperava. Estou em harmonia sincera. Como a mão esquerda e a direita. E isso vale muito mais do que qualquer aniversário, beijo ou grande vitória pública. Na madrugada do dia de hoje, há um ano atrás, decidi recomeçar. Um ano depois o saldo é extraordinário…

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