Ensaio sobre o humano

Não posso dizer que tenha tido um fim de semana óptimo. Pelo contrário. Quando as coisas correm bem, temos alguma tendência para ficar nostálgicos e com isso perde-se alguma da euforia normal pelas boas notícias. É normal este regresso a um passado onde nos julgávamos felizes. Não raras vezes sentimos o voltar de uma brisa, o regresso de um som ou o toque imaginário de uma pele que queríamos tão pura quanto a nossa. É assim que a vida corre. Inevitável… Digamos que as velhas memórias afloram aos sentidos quando menos precisamos delas. Aparecem sem convite. Desaparecem sem motivo. Retornam airosas sem querer e desvanecem no sorriso de uma história mal contada… Isso acontece porque passei por tudo. Pela euforia descontrolada, pelo beijo roubado, pela visão mais que perfeita do futuro, pelo choro compulsivo, pela surpresa, pelo choro arrebatador, pela dor lancinante e pelo tormento do adeus. Tentei habitar uma pele que não era minha e com isso sofri. Experimentei o que nunca havia imaginado experimentar, só para ter certezas. Mas ficaram as dúvidas. As mesmas de sempre. As mesmas de ontem, hoje e amanhã. De nada adianta adoptar comportamentos diferentes. Ferir gratuitamente para anestesiar a nossa própria dor. Hoje vivo diferente. Hoje  apenas vivo. Ás vezes melhor, outras pior. Aceito o inevitável confronto de ideias quando me chegam novidades ou ausências. O mundo é feito disso: um diário de longas ausências e grandes novidades. Ultrapasso as ausências o melhor que posso e sei. E isso chega porque a mais não sou obrigado! Não sou perfeito. Não sou eterno nem dono de verdades absolutas. Sou humano.  Sangro com a dor do golpe. Arrepio-me com coisas que só eu sinto. Com a brisa de uma primavera que só eu vejo chegar, ou o frio de um inverno que paira na minha cabeça… Tudo sentir inteiro. Em todos os poros e todos os pêlos. Sentir total e sem fronteiras. Tenho altos e baixos como todos. E se para todos isso é normal, para mim é o mais sincero sinal de que estou vivo e atento. Lúcido. Completo neste jogo de estar confortável dentro da minha própria pele. Não fujo do sentimento incómodo nem do aborrecimento. O choque faz parte de quem vive a grande velocidade. E se a chapa e o ferro que revestem o meu corpo se danificam, o motor não pára de trabalhar. De buscar respostas a perguntas imaginárias e levantar panos onde as peças se preparam… Não sei textos decorados nem uso contra-ponto. Não penso demasiado nas palavras que digo ou escrevo. Não imagino consequências nem construo histórias e alternativas. Apenas sou Humano. Humano desde as lágrimas silenciosas até à alegria contagiante. Humano desde a ponta dos pés, até ao que ao meu olhar escapa… Tudo faz parte. Até o pequeno egoísmo de estar triste quando apenas deveria estar feliz. Faz parte. Não gosto. Sei que estou errado mas tento não me esforçar por mudar. A mudança virá naturalmente quando estiver preparado. Não vou forçar-me ao conforto total e absoluto. A minha pele é a minha morada. Os meus sentimentos são sinceros até quando abruptamente me atraiçoam. Diz-me a experiência que quando me forço a fazer o que não quero ou não posso, sou uma pessoa pior… Sou apenas Humano e por isso os erros, gramaticais e de talento, fazem parte da pessoa que sou. Conheço os meus limites e em momento algum me sinto ilimitado ou indispensável. Em momento algum considero alguém indispensável. Sou apenas humano e vivo rodeado de gente de carne e osso. Aqui, neste mundo, não cabem os perfeitos. A perfeição é ópio. Ilusão e êxtase. Eu gosto de ser Humano. E gosto de errar. Aprender com os erros e nunca esquecer que, como Humano, tenho a obrigação moral de aceitar o pior de mim. E quem de mim gosta, gosta de tudo… Especialmente da parte Humana!

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