Ensaio sobre o ofício

Anteontem poderia ter tido um fim de tarde perfeitamente normal mas tal não aconteceu. Foi um bom dia para mim. Os resultados do concurso que aguardava saíram finalmente e desta vez fui um dos felizes contemplados. Um dia como este é de altos de baixos. Alegria pelos que ficam na zona selecta dos financiados, desilusão pelos que ficam abaixo desta. O pior de tudo é a sensação de injustiça que por vezes fica no ar. A seriação permite-nos ver quem está acima, quem está abaixo. Muitas vezes conhecemos quem está financiado e quem ficou de fora. Há um misto de alegria pela sorte de poder respirar um pouco, mas é mais forte que eu esta falta de honestidade das pessoas que avaliam. Não é raro encontrar pessoas com um currículo de merda situar-se bem no cimo das listas. O ano passado a primeira classificada na minha àrea científica teve nota máxima em todos os parâmetros sendo que apenas tinha publicado um artigo científico numa revista da caca. Um horror tendo em conta que o currículo tem uma ponderação de 3 em 5. É injusto e absurdo. O meu copo, medidor de felicidade e vontade, está cheio a transbordar mas é preciso não esquecer que algumas pessoas não podem dizer o mesmo e algo deve ser feito. Eu estou descansado mas o meu descanso não pode ser sinónimo de resignado. Estes processos deviam ser transparentes. Completamente transparentes. O mérito de cada um não pode depender do nome, da instituição pela qual concorrem, da cor dos olhos ou do nome dos orientadores. Este sistema, que se quer transparente, tem de ser mais fiscalizado e controlado. Os painéis deveriam ser penalizados cada vez que a vida de alguém fica em suspenso por um mau uso do poder que lhes é confiado… Tenho financiamento para 3 anos, renovável para mais 3. Apesar da nota final não ter sido extraordinária, os comentários à minha candidatura foram muito bons. Dão-me ânimo para continuar a desenvolver a minha linha de trabalho. Ontem mesmo pensei sobre isso. Vim parar  a esta profissão por mero acaso. O aconselhamento na escola, a pressão dos professores para seguir medicina (que mais tarde nem cheguei a tentar…), levou-me até ás ciências. O curso, vocacionado para investigação, fez-se entre tropeços, pagode e muito divertimento. Coloquei o meu esforço e dedicação a favor da descoberta e em nome do meu ofício. O ofício que escolhi. Não tenho a profissão com que sonhei desde pequeno, historiador, nem cumpri os maiores desejos das pessoas que me viram brilhar na escola e exigiam que tentasse medicina. Ao invés escolhi um ofício de que me orgulho. Respeitável. Trabalhoso. E a ele me dedico fazendo o melhor que posso mas sem entrar em euforias ou desgaste. Acho que isso é muito vantajoso porque a ele me dedico sem os excessos e frustações de quem precisa urgentemente do reconhecimento e estrelato. Vivia bem sem o fazer mas se tenho de cumprir a aprendizagem que me levou até aqui então fá-lo-ei o melhor que posso colocando o meu intelecto e o meu físico ao serviço dele. O meu ofício não domina os meus sonhos. Apenas faz parte deles. Ontem pensei sobre isso. É saudável que assim seja. Não sinto qualquer pressão para ser comparativamente melhor ou mais reconhecido. Só quero ir mais longe por mim e pelos meus. Eu domino a minha vontade e cumpro o meu ofício com o brio do esforço de querer ser o melhor possível. Não sou dominado pelo sucesso e pela ânsia de ter e ser. Não sou historiador mas conto histórias com o que investigo. Sei a importância social e até médica que tem a minha profissão. Orgulho-me de poder dizer que mereço financiamento pelo suor e pelo profissionalismo. Anteontem foi um fim de tarde bom. É bom afastar o fantasma do desemprego… Não me livrei dele, só o afastei mas para mim isso chega e sobra!

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