Ensaio sobre dispensas

Estes têm sido dias difíceis em que as boas notícias profissionais não conseguem abafar algumas coisas menos boas que pairam pela casa dos meus pais. Se eu fosse crente em Deus e no Diabo, teria de consultar ajuda espiritual para tentar perceber o que se anda a passar. Como não sou e tenho uma cabeça pronta para pensar prefiro ficar pela tentativa de perceber a lógica destas más notícias. Desta vez foi a minha irmã, que trabalha como mulher a dias, que ficou sem a “principal” patroa. Despedida. Nada que eu já não esperasse. A crise que agora afecta toda a classe média vai ter como consequência a destruição total da classe mais pobre que depende dessa mesma classe média. Desde o início desta famosa crise que venho alertando para os efeitos em cadeia que podem ter algumas medidas. Os cortes salariais aos funcionários públicos ultrapassam em larga escala o recomendável já que muitas vezes, ambos os cônjuges, são trabalhadores da função pública. Têm 3 ou mais filhos. Têm carros e casa ajustados ao que era o nível de vida antes dos cortes salariais e a adaptação a esta nova realidade vai passar, infelizmente, por cortes que afectam a vida dos mais desfavorecidos. Assim, não me surpreende que as doacções para solidariedade social estejam em queda. Também não me choca que os colégios privados percam alunos. A solidariedade e até a educação. Claro que a perda de status, de que resulta o despedimento da emprega doméstica, é uma medida um pouco mais drástica mas quando se tem de optar entre manter os 2 carros (que sem demagogia aceito como necessários para trabalhar e para o dia-a-dia), uma mansão de 4 quartos que os prende a empréstimos caros e desvaloriza os ordenados que mal cobrem as contas, pouco há a fazer senão cortar no supérfluo. Uma emprega de limpeza pode ser um luxo, de facto. Mas ganham mal e trabalham muito. Cumprem tarefas que nos custam e, eu próprio o digo e escrevo, há coisas que prefiro pagar a ter de fazer. Não tenho dúvidas de que esta é uma profissão tão necessária como outra mas face à precariedade e aos péssimos ordenados que lhes são pagos, estão mais expostos a flutuações das condições de mercado. Vão ser às milhares as empregadas domésticas “dispensadas”. A crise vai começar a fazer-se sentir sobre essa classe mais desprotegida. Mas há pouco a fazer. E é em certa medida compreensível que assim seja. Agora a solução seria aproveitar esta crise para proteger as pessoas. Estas pessoas mais desprotegidas pela precariedade salarial e pela insconstância do trabalho. Estas pessoas trabalham para comer. Não ganham o suficiente para poupar ou para sossegar. Trabalham para comer e ganham o suficiente para uma vida digna e valorizada pelo suor… Não podem dar-se ao luxo de ficar em casa. Não podem parar nenhuma das 8 horas do seu dia de trabalho. Não podem parar porque não ganham e não podem parar porque precisam desse ritmo para se sentirem satisfeitos e realizados. O problema é que esta crise veio destruir o que as pessoas construiram com o seu esforço. Esta crise serve de desculpa para as piores reformas. As menos compreensíveis por apenas se concentrarem nos números e as pessoas não são definidas pela matemática. São tudo menos fórmulas milagrosas e conhecimento científico. É preciso manter a fé. Ter esperança de que um dia as coisas mudarão. É minha obrigação tentar fazê-lo e me esforçar…

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