Ensaio sobre pobreza imposta

Não tenho dormido bem. As preocupações com a vida dos que me são próximos são muito mais intensas do que as preocupações com a minha própria vida. Não sei porquê mas tomo as dores como minhas e perco a cabeça, a paciência e até o frescor físico para aliviar quem me conta os seus problemas. Há solução para tudo, menos para a morte. A seu tempo tudo se resolve. Pelo melhor ou pelo pior mas ficará resolvido sem apelo nem agravo porque a Vida continua e caminha a passos largos para o futuro. Não sou de me entusiasmar facilmente ou de me deixar levar pelo optimismo exagerado que tantas vezes pode ser mais um alucinogénio que uma dose certa de bom senso. Assim os meus últimos dias têm sido trabalhosos. Estou dedicado a resolver um problema que é meu. Não que o deseje como meu mas apenas por inerência do destino que não o apresentou. Só o impôs às minhas mãos com a força do que é e não tem tempo para preparar o terreno onde se pousa. Aceito. Vou aproveitar a oportunidade para dizer: “chega”. A pobreza atrai mais pobreza quando a honestidade se sobrepõe a tudo o que são os valores da sociedade fast-fode (!) em que vivemos. Fodem-se os vizinhos, depressa e bem. Fodem-se os mais necessitados, quem vive mal aguenta sempre um pouco pior… De buraco em buraco se vai construindo esta grande empresa que é a sociedade em que estamos. Temos um presidente, vários directores e conselhos de administração que vão impondo as suas regras sobre as nossas vidas. Dizem o que podemos fazer e o que não podemos dizer. Nem sequer pensar… E se alguém tem ambição de fazer parte desta grande empresa, então pouco mais resta senão foder depressa. Ser precoce na conquista de espaço e lugar. A pobreza de espírito e de valores é compensada pelo ouro roubado e pelo trabalho não suado. Apenas usurpado… Estamos assim. Aparentemente condenados a pouco. Tão pouco que quando olho à volta já me custa manter os olhos abertos. Não suporto gente que condena outros para se inocentar. Ando cansado mas estas situações dão-me uma força extra para apoiar, do único modo que neste momento posso, assumindo um compromisso de suar e usar as palavras e os termos técnicos que as pessoas mais humildes não conhecem. Para gente pobre, sem dinheiro para advogados e deslocações sistemáticas para tratar de burocracias ligadas ao apoio judiciário, é aceitável que após mais de uma década de trabalho uma empresa possa despedir sem pagar nada. Há mais de 10 anos, o adolescente tímido não se dedicou a mover mundos e fundos para que a minha mãe não pudesse ser despedida após 20 anos de trabalho. 20 anos na mesma casa, no mesmo serviço, não foram suficientes para impedir um despedimento pelo telefone. Mais tarde soubemos que nem os descontos tinham sido feitos. Basicamente não existe qualquer prova documental de que ela trabalhava lá. Envergonho-me de na altura, ainda antes de entrar para a faculdade, ter-me desleixado com o assunto. Não tinha a força nem o atrevimento de hoje. A pobreza foi-lhe imposta e aceite por assinaturas em papéis que não leu. Foi-lhe imposta por confiar. Sobrevivemos. Como sempre, quem vive mal consegue suportar um pouco pior. Mas se acham que nos derrotaram, enganaram-se. Porque desta vez os dados ainda estão a rolar. E na lotaria do que é a justiça nos nossos dias, a pobreza é imposta mas pode não ser aceite. E desta vez eu não aceito. Ao invés de confiar irei agarrar com unhas e dentes a oportunidade de mostrar que a mim, e aos meus, não me poderão impôr a ousadia do oco das ideias ou da mentira. Quer vir, pois que venha. Mas venha armado de argumentos porque o dinheiro compra tudo, menos os Valores e a consciência. Tenho alguma esperança mas mais do que possa esperar, tenho a certeza de que farei o possível para que não mais tentem impingir-nos a pobreza. Deixem-nos trabalhar. Deixem-nos respirar. Que continuem a impôr a pobreza de espírito aos seus filhos, familiares e amigos…

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