Ensaio sobre sonhar

Que não restem dúvidas: o homem nasceu para sonhar. Tudo pode ser. Tudo cabe no mundo mais querido e desejado. O que não se pode pensar é que os sonhos se realizam por si. Que alguma entidade superior avalia merecimentos e punições para que eles se realizem. Nada disso. O homem nasceu para sonhar mas a concretização dos sonhos depende muito do trabalho, da sorte e dos factores incontroláveis da vida. É necessária uma conjugação de energias e forças para que sejamos presenteados com a realização dos sonhos. Mas sonhar não custa. É gratuito por enquanto. Nas piores situações do mundo, nos piores lugares, nas piores fases, podemos sempre fechar os olhos e sonhar… Mas sonhar pode ser perigoso quando se sonham os sonhos errados. Há gente para tudo e para nada. Há gente que nem para sonhar serve. De que adianta uma vida de caviar e de bons carros se a saúde, que tantos esquecem de sonhar como perfeita, falhar? De que serve a conta bancária recheada se o coração estiver vazio? Até para sonhar é preciso ter a inteligência prática do quotidiano. Eu próprio sonhei com tudo o que condeno. Sonhei com uma vida de luxos e excessos quando era muito pequeno e faltava até àgua canalizada… Sonhei com tudo o que não via nem sentia por perto. Era a magia do deslumbre, do arrebatamento pelo brilho e pela forma. Esquecia frequentemente o conteúdo. Era miúdo, muito pequeno. Lembro-me de caminhar kilómetros sobre a chuva até chegar à pré-escola. Teria talvez uns 5 anos. Enquanto os carros passavam apressados molhando a minha roupa e o vento natural ou causado pelo movimento frenético dos carros virava o meu guarda-chuva, eu pensava que queria um carro só meu! Para mim… Era um sonho que me parecia tão impossível quanto hoje ganhar o euromilhões. Hoje tenho o carro e não gosto de o conduzir. Faço-o por obrigação e não por gosto. Poderia dizer que realizei um dos meus primeiros sonhos. Mas envergonho-me. Bem sei que era criança demais para distinguir o bem do mal mas não é nada que me cause orgulho e satisfação… Hoje os meus sonhos são outros. Distantes do ouro e do brilho. Hoje os meus sonhos arrepiam a pele. E são essenciais porque nos sonhos sou completamente livre. Não pago impostos nem me presto a explicações. Sonhar é a aplicação prática da liberdade e provavelmente no dia em que formos completamente livres seremos capazes de experimentar a mesma satisfação que temos com um sonho. Imagino-me a viver a sonhar todo o meu tempo… Sonhar tudo o que é bom e me deixa completamente feliz. Saúde. Trabalho. Realização pessoal. Amor verdadeiro. Amizades sinceras e até a “casinha branca de varanda e o sol a amanhecer”… Tudo coisas simples e tão impossíveis de concretizar. Sonhar é ser montanha, intransponível, quando tudo à volta parece desmoronar. Sem sonhar ninguém vive. Sem saber sonhar ninguém pode ser feliz… É por isso que vejo com apreensão esta constante desvalorização da capacidade de sonhar. É preciso exigir mais. Ir mais longe. Aprender o que realmente importa. Aprender. Só aprender para depois saber sonhar. Não adianta camuflar vontades e errar o alvo com a desculpa do que sempre se quis. Sonhar não é ter. Sonhar não é conseguir. Sonhar é construir aos poucos. Pegar em cada tijolo, em cada pedra, em cada desilusão e aprender. Seguir aprendendo como se esse fosse o melhor alimento. O único. Hoje sonho muito. Não sei se são sonhos impossíveis, o que realmente sei é que até a dormir aprendo…

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