Ensaio sobre a dúvida

Há pessoas com um enorme potencial para serem fabulosas. Têm todas as qualidades necessárias para serem extraordinárias mas ao invés de se libertarem do fardo pesado de um único defeito, preferem abraçar a estúpida inocência que as pinta de preto. Dos pés à cabeça. A inocência só é um defeito quando se associa à estupidez de se acreditar em tudo. Até nas mentiras mais óbvias e nas vidas mais duvidosas… Há pessoas que simplesmente não querem sair desse ciclo infernal de serem sistematicamente abusadas na inocência. O que me deixa mais pensativo é que estas pessoas, potencialmente diamantes em bruto, transformam-se em missangas de vidro muito frágeis no que aos amigos diz respeito. Tenho pena que com o passar do tempo, estas pessoas que poderiam ser fabulosas, não percebam o perigo que correm ao sujeitarem os entes mais queridos a situações absolutamente desnecessárias. Há duas opções: ser amigo superficial ou ser amigo radical. O intermédio é pouco… Estou atento a este fenómeno crescente que está também ligado à necessidade de agradar pessoas que deviam apenas desprezar. É um mistério estranho. De onde vem esta nova moda de querer ser amado até por quem merece apenas o vulgar “bom dia”? Não sei de onde vem mas assusta-me o caminho a que pode levar esta nossa busca de afecto de gente que não devia poder afectar ninguém. Sempre defendi a velha máxima: “quem faz ao meu amigo, faz comigo” mas também gosto do provérbio: “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Assim, há pessoas cujas amizades devemos abdicar para que não nos confundam com aquilo a que elas se associam. Tenho pena que tenha de ser assim mas não há alternativa à vontade de cada um. Quando as pessoas, por melhores que sejam os valores que possam ter, preferem mimar e trazer no colo tudo o que não vale a pena pouco mais podemos fazer senão alertá-las suavemente e na mesma suavidade aguardar que por seus próprios meios percebam e corrijam os seus erros. Se não o conseguirem, apesar de todos os alertas, então é porque não aprenderão depressa e tempo é algo que não sobeja a quem vive tão intensamente quanto pode. A vida é curta e não permite ensaios. Esses existem nos momentos a sós ou no intenso monólogo com a nossa própria consciência. Eu não sei porquê mas a responsabilidade de direccionar os pés para onde só a vontade própria devia conduzir, é uma arma demasiado poderosa que não uso. Prefiro manter-me na sombra. Deixar as pessoas viver. Sofrer. Caminhar na sua própria estrada. Mas confesso-me pouco paciente para tolerar que se degradem vidas pela inoperância e por ser mais fácil acreditar que duvidar. A dúvida quando exagerada pode destruir mas se usada na medida certa da inteligência, pode ser decisiva para nos proteger.  A dúvida que me persegue é a mesma de algumas histórias que me chegam, contadas pelo discurso ou por e-mail. Contadas de voz a tremer e com a dúvida subjacente embora se iludam com a tal inocência que converte esses contadores de história em pessoas parecidas com quem as inventa. Bem sei que ás vezes parece preferível acreditar numa pequena mentira. A melhor coisa é aceitar e abraçar uma pequena mentira… Será tarde que percebem que não existem mentiras pequenas. Todas as pequenas mentiras, numa relação, mostram a existência de uma absoluta certeza… A dúvida que me persegue sempre é: valerá a pequena ter ouvidos para quem se recusa a aceitar a sua própria dúvida? A mais pequena dúvida tem de ser esclarecida. Pudesse eu ter quem mo dissesse há anos atrás e teria sofrido muito menos. Seria uma pessoa muito melhor, muito mais cedo. Faço mea culpa. Durante anos maltratei muita gente por não querer esclarecer a minha dúvida. Depois de pedir desculpas, resta-me apenas evitar ser eu o maltratado pela dúvida que outros recusam esclarecer…

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