Ensaio sobre a dieta intelectual

Pareço um pouco desatento a toda esta história de atentados na Noruega. Não me apetece ler muito sobre o assunto e enquanto não estiver esclarecido mais vale nem pensar demasiado sobre o que se passou. Morreu muita gente, quais mártires do tempo moderno, para que finalmente a europa veja o perigo que se espreita mesmo nas civilizações mais avançadas. Acho que o alerta será passageiro tal como quase tudo nos nossos dias de sistema estrelar e meteórico. Tudo passa a uma velocidade vertiginosa. O perigo de hoje é a desatenção de amanhã. E sobre isso não me restam dúvidas. Estas vidas desperdiçadas serão rapidamente esquecidas e o debate público do que realmente aconteceu não se fará. Quando se chegarem a conclusões mais concretas, a história já era e a imprensa terá tratado de escrever o que a opinião pública precisa (ou quer…) realmente saber. Para a maioria apenas importa saber onde morreu esta gente, quem matou, como matou e porque matou. Estas questões, quando juntas, estão em qualquer reportagem destes dias pós-crime. E pronto. Ficaremos por aí… O grande problema não será debatido ou analisado com pormenor. Amanhã, infelizmente, novos crimes virão. Talvez não tão graves. Talvez possam até ser ainda mais graves. Mas o imediato é o que importa nesta sociedade fast-food. Sociedade de fazer merda. Comer e cagar. Entra pelos olhos, pelos ouvidos, pela boca e até pelo toque das mãos. E logo tudo é expelido. Dejectos de história e sem conteúdo. Por dentro nada é absorvido porque engorda e hoje todos temos de ser magrinhos. Até no cérebro. Há uma dieta intelectual imposta que obriga as pessoas a comerem fibra. Só coisas que não são absorvidas pelo corpo. O cérebro é reduzido ao mínimo. Não porque seja cansativo pensar, apenas porque é bem mais fácil não ter de o fazer. Somos verdadeiros escravos da beleza e da magreza. Dos olhos verdes falsos e do brilho traiçoeiro da pele. Nada como sorrir muito. Negar as evidências e as certezas porque são inconvenientes. Verdades pouco comerciais e monetariamente desvantajosas. Assim vai o estado do mundo. Em dieta intelectual. E este acontecimento na Noruega vai provar isso mesmo. Daqui a um ano festeja-se o aniversário, como se houvesse algo a festejar. Daqui a 20 anos falar-se-à sem entusiasmo daquele fatídico dia mas a dieta obriga-nos a não alimentar o pensamento… O livre pensamento vai emagrecendo e com ele nasce o radicalismo. Toda a forma de radicalismo me assusta. Da esquerda à direita. Do centro à periferia. Acho assustador e dietético. As palas que rodeiam os olhos com a bandeira de qualquer tipo de intransigência e magreza de debate e de ideias, têm de ser arrancadas. Só os burros as usam para não se desorientarem. É caminhando que se encontra a saída. Percorrendo os campos e as estradas em todas as direcções. Comendo de todas as ideias. Alimentando o cérebro de tudo. Do bom e do mau. É nos livros e na leitura que encontramos as respostas. E se estes crimes hediondos são alarmantes, mais ainda é a não aprendizagem do que eles representam. Eu luto contra essa dieta. Quero o conhecimento, a discussão, a exaltação de ideias e o mundo perto porque longe estarei depois de morto e do fim. Terei toda a eternidade para emagrecer intelectualmente… Quantos terão de morrer para que esta anorexia intelectual seja decretada como uma epidemia patológica que se alastra na juventude e se propaga até à velhice. Tem dias em que me sinto absurdamente ligado. Antenado. Assustado com estes acontecimentos que antes mesmo de acontecerem, já são obra do passado. Antes mesmo de acontecidos, são esquecidos…

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