Ensaio sobre a delicadeza

Esta noite não dormi. Tem noites assim. Aproveito-as para ler um pouco mais que o costume e quando a luz incomoda e os olhos já não suportam a claridade, ponho a cabeça a funcionar e começo a divagar, devagar, entre os dias passados e os futuros. Talvez seja o meu espírito demasiado irreverente no sentido de não permitir que guarde os meus pensamentos trancados num fundo de armário. Pelo contrário. Sempre que penso na minha capacidade provocatória para expôr as pessoas ao ridículo da sua própria pequenez, lembro um caso antigo do meu tempo de colégio. Andava no 6º ano e era por essa altura um dos alunos mais conhecidos da directora e mesmo da Madre. Éramos velhos conhecidos de outras histórias… Um dia, numa aula de português, foi pedido que escrevessemos sobre um grande escândalo da história. A professora era daquelas idiotas, super religiosas e preconceituosas para com a pobreza. Tudo qualidades de uma boa cristã! Há uns dias que aguardava o momento certo para expôr as suas limitações já que as minhas tinham sido sujeitas à sua fraca ironia quando me entregou o primeiro teste do ano dizendo: filho de operário operário é… Jovem irreverente como era, daqueles que fumam às escondidas, fogem para visitar a mãe e para nadar nús no rio, aguardei ansioso o momento certo para expô-la ao ridículo. Ao riso e sorriso irónico de quem sabe ter todo o tempo do mundo e toda a razão para mostrar. O trabalho de casa sobre um escândalo da história era o momento ideal. Escolhi o tema. Ideal para quem está num colégio: “A mulher que chegou a Papa…”. Foi uma sensação óptima vê-la despertar daquela superioridade que julgava ter. Foi fechando o rosto e as faces inundaram-se de sangue. Ficaram roxas. Ainda me levantou a mão mas parou a tempo. O bom do preconceito é que revela imediatamente uma enorme covardia e como tal, faltou-lhe a coragem para bater num miúdo da ala social. Teve medo da reacção já que a nossa ala era famosa pela violência que, honestamente, era mecanismo de defesa e não um ataque cerrado às supostas educadoras. Livrei-me de uma tareia ali à frente de todos mas tive de ir “imediatamente” com o trabalho nas mãos até ao gabinete da directora da escola. Lá fui eu. Calmo e sereno com a prova do crime nas mãos. Bati à porta e fui recebido com um certo cansaço: “então o que foi desta vez?”. Lá expliquei e passei-lhe o texto para as mãos. Ela leu atentamente e ao invés de me repreender levou-me pela mão até à sala de aula. Abriu a porta e entrou de rompante. Mandou-me sentar e de imediato perguntou se o tópico era mesmo escrever sobre um escândalo da história. A professora acenou. Engoliu em seco. A directora sorriu e apenas disse: “Quer maior escândalo que este?”. Pediu que todos lessem os seus títulos e frizou que o meu, dada a época e a dimensão do caso, era um tema deveras interessante. Sorriu-me e saiu. Eu fiquei sentado. Ironicamente quieto e sem sorrir. Pensei para mim mesmo que há na delicadeza um certo constrangimento em quem nos quer mal. A delicadeza é desprendimento de tudo o que é externo à nossa linha, ao nosso compromisso com o comportamento que pretendemos. Delicadeza é equilíbrio absoluto. Sentar sem balançar e tocar as feridas com tamanho cuidado que mesmo em face do maior encontrão permanecemos impávidos e serenos à espera do melhor momento para soltar aquela risada mais feliz. Mais completa. A delicadeza não é pensada ou idealizada. A delicadeza é inata e tão natural quanto o encanto de quem se delicia por saber que as coisas não estão como podiam estar. Podiam estar melhor mas podiam estar muito pior também. A vida é para viver na delicadeza. Como se pisar nas nuvens suavemente pudesse evitar a queda…

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Não categorizado. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s