Ensaio sobre a falta…

O meu coração tem regras que mesmo eu, dono dele há quase 3 décadas, desconheço. Tem dias que se enche de angústia e uma dor percorre todas as fibras e os lugares. Todas as memórias. Sou um eterno condenado ao sal de lembranças e ao vazio do relógio sem horas que teima em massacrar o meu dia, minuto a minuto. As noites são longas e os sonhos miragens de alguém desesperado pela salvação… Tem dias assim. Feitos de esmola e de culpa. Insanos até nas suposições. E se… E se… E se… E se tudo tivesse sido diferente. E se tudo tivesse sido dito e não apenas decretado o fim. As mãos soltas e os braços caídos. Os olhos magoados e o corpo cansado e pronto a desistir. Talvez seja isso. Há dias feitos de pura desistência. Em que apetece aceitar o que lúcidos recusamos. Em que apetece saltar todos os muros, arrombar todas as casas e destruir todas as vidas. Como tentaram fazer com a minha… Há dias que apetece bater a porta e afastar os fantasmas que pairam sobre a minha incessante busca pela felicidade. Já vi e fiz coisas na vida que até Deus duvida. Coisas que nunca expus. Não pela vergonha mas antes por sentir-me um coitadinho. O mesmo coitadinho derrotista e cansado que também precisa de chorar de vez em quando. Precisa de extravasar a dor e aceitar o que pode parecer inaceitável! E o que me parece inaceitável? Inaceitável é dedicar-me anos a construir uma vida para alguém e tê-la perdido. Inaceitável foi viver nas nuvens, tão alto quanto possível, só para sentir a queda livre. Inaceitável foi ficar com a vida que restou de duas vidas sem poder apagar os projectos e o futuro… Inaceitável foi trazer debaixo do braço quem podia ter sido o Grande Amor da minha vida, e ser trocado por outros braços. Mais laços. Mais livres e menos seguros. Inaceitável é esta minha dor que não cessa e volta de vez em quando só para me lembrar de tudo. Esta aflição de ter vivido coisas demais e inconfessáveis. Estas recordações que me trazem traumas de anos e anos num submundo de onde escapei com vida. Há dias assim. Feitos de pura desistência. A mesma que me fez perder muitos quilos há algum tempo. A mesma que me fez começar a fumar aos 10 anos, perder a virgindade com a vizinha aos 12. A mesma desistência que fez ter uma adolescência desorientada e um atingir de maturidade muito conturbado. A desistência que marcou o meu primeiro ano no colégio. Essa mesma que se vai instalando comodamente no corpo. Esse corpo que chama pelo nome que não quero ouvir. É difícil viver assim. Lamentando não se sabe bem o quê, mas conhecendo demasiado bem quem… É inaceitável viver neste colete de forças que me amarra e atordoa. Foi dado o nó. O corpo chama em vão. Do lado de lá não há sinal. Do outro lado há o muro intransponível do adeus. A despedida que nunca fiz por nunca a ter imaginado. Sou pouco criativo. Pouco imaginativo quando sorrio e me entusiasmo. Tenho uma alegria que vive fora de mim e me arrasta pelas ruas e avenidas sem pisar o chão. Levito. Ando nas nuvens e voo alto… Falta-me algo. Sinto a falta de qualquer coisa que não sei bem o que é. Sinto a falta de alguém para tomar conta. De um grande projecto para a minha vida pessoal. Deposito a esperança toda no futuro. Ainda ecoa na minha cabeça o chamamento do corpo. Do desejo e da luxúria. Da volúpia sensual que só quem ama conhece. Nos próximos meses, se não nascer esse grande projecto, a minha vida vai mudar porque assim não pode ficar!

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Uma resposta a Ensaio sobre a falta…

  1. Francis Moreira diz:

    Marco,
    Espero, do fundo do coração, que o Grande Projecto, já tenha aparecido no teu caminho, meu caro. Sair feliz pelas ruas, abraçar a Vida e receber dela o calor. Um calor que acalenta os sonhos do futuro,e também de um presente com um sorriso na tua cara tão bonita, rapaz. Viver é difícil, porém alentador também. Todas as experiências, todos os amores, todo o sofrimento assim como toda a alegria, fazem parte do cenário neste grande palco por onde vagamos sem um texto e com um Director invisível.
    De repente, não mais que de repente, me encontro lendo coisas tão profundas e íntimas. Não quero sentir-me um invasor no teu espaço reservado para pessoas que te conhecem e que foi para elas que tu escreveste tudo o que acabo de ler. Por isso, sinto que tenho que te pedir permissão por estar aqui, já depois de ter aberto as “portas que dão pra dentro, percorrer correndo corredores, em silêncio…” (“Janelas Abertas”, uma das canções mais lindas, cantada por Maria Bethânia.)
    Um abraço,
    Francis

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