Ensaio sobre precisar aprender por si

Ás vezes cai em mim uma melancolia quase como um eterno entardecer sobre a vontade. Cruzo os braços e páro. Parar é o pior de tudo porque começo a andar devagar. Tão devagar que consigo reparar em quase tudo. Nas texturas e nas variações. Nas modulações. Nas linhas e tramas que se desenrolam à minha volta. E fico triste. Fico triste pelas palavras que ouço e não posso repetir. Fico enfurecido pelo que pressinto e antecipo sem que possa contar. O dilema traz melancolia. Desânimo para manter tudo como antes… Sou bom a guardar segredos mas péssimo a manter-me acéfalo, sem pensar no que as pessoas que em mim confiam fazem. “Quem faz ao meu amigo, faz comigo…”. Esta é uma velha máxima que nunca esqueci. Aprendi, em jeito de trava-língua complexo, quando estudava no colégio. Dizíamos uma série de meios provérbios, inventados ou adaptados, que perdi no tempo. Mas este ficou… Ficou para me lembrar de que a linha que nos separa, a todos, é ténue. A maldade só fica de fora se criarmos uma zona de segurança. E eu vivo preocupado com a minha… Nunca conhecemos quem temos do outro lado da linha. Do outro lado do olhar e no avesso da pele. Podemos tentar rasgar. Sangrar. Procurar a ponta da linha que liga directamente coração e razão. De nada adianta gastar o tempo com sinais. A verdade é quase sempre conhecida por meios indirectos. Pela resposta seca quando esperamos uma reacção molhada, pelo olhar aborrecido quando a nossa alegria devia ser contagiante. Mas acima de tudo, a verdade que nos liberta, chega pela história mal contada que não quisémos aprofundar.  O passado que dizemos sempre não importar mas que pode revelar tanto… Só se pode começar algo de verdade, amizade ou amor, quando se resolvem todas as mentiras. É assim que vejo a vida. Não se deve brincar com a vida de outra pessoa. Não é necessário. Se sexo é o que se pretende, pois que se diga. É saudável, é uma boa forma de exercício físico e para além de todos os benefícios corporais, é uma óptima terapia anti-stress. Talvez a melhor de todas. No entanto, se sexo é o que pretendem, as pessoas devem deixar isso claro como água e não misturar tudo para ver o que dali sai. É que no fim, se fim houver, alguém terá de ficar com o sabor amargo da partida. E normalmente são os mesmos de sempre… quem confiou. Quem amou. Quem viveu na plenitude de um sonho sem saber que a noite é curta e na madrugada, quando Deus muda a guarda, tudo fica estranho. O sol tarda em chegar mas quando brilha estamos mais perto. Cada vez mais perto de nos orgulharmos de quem somos e do que representamos. As pessoas que traem e no mesmo dia assumem a sua fraqueza estão em vias de extinção. Muito mais do que as pessoas que fogem com medo do perigo. Muito mais do que as pessoas que se escondem na sua timidez para um dia prepararem o golpe final. Trair é grave mas mentir é mais. É mais porque ultrapassa todos os limites. É mais porque arrasta mais de uma pessoa. Ás vezes amigos. É mau porque quando eu me sinto enjaulado no que penso e não posso dizer, fico melancólico. Sinto-me abatido pelo que devia dizer mas a minha consciência não deixa. As pessoas têm de aprender por si. Por si. Pela sua vida e pela sua felicidade. Lamento mas por mais que goste, apenas posso deixar aqui o que penso para desassosegar. E quem sabe se desassossegadas as pessoas não aprendem por si…

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