Ensaio sobre o Convite

Hoje recebi um estranho convite para um café. O lógico e normal é que duas pessoas, quando se separam após partilharem o leito da cama e o conforto dos braços durante anos, fiquem amigas. A amizade devia perdurar e as mãos que antes se demoravam em longos gestos e se perdiam, juntas, nos corpos desnudos deviam poder apertar-se. Sem faísca. Sem ligação directa a nenhuma ferida. Sem sangrar o avesso da pele e os olhos se humedecerem… O coração vazio esquece à toa mas quem sente não perdoa. A boca que selava um tão grande Amor não consegue calar a dor e esquecer que por ali ficaram sonhos. Projectos. Por ali passaram grandes planos e uma velhice. Um fim de vida. Aquelas mãos, que hoje queriam segurar as minhas, um dia trocaram o meu corpo e a minha vida sem me avisar. Sem a sensibilidade que se exige e o respeito que se deve a quem tanto bem nos faz… Longe de ser perfeito. Com defeitos e feitios me responsabilizo e culpabilizo. O que fica de uma paixão mal resolvida? Destroços. Muitas feridas que demoram a sarar. A questão é: vale a pena cutucar em velhas marcas? Acho que não… Deixa-as lá. Longe. Onde as cicatrizes eternas se escondem. Hoje recebi um estranho convite para recordar de perto o que há muito se quis afastar de mim. Hoje. Um dia como outro qualquer não fosse trazer um convite que me fez recuar no tempo até um tempo onde eu não era. Eu quase não existia. Vivia na sombra de quem aguardava o melhor momento para se projectar em outro… Mantenho o que sempre pensei e disse: nunca encontrará alguém que esteja disposto a amar como eu. E por ter sido tão grande a entrega, e tão pouca a dignidade do adeus, os laços que uniam a nossa vida foram cortados para nunca mais se puderem unir. As pontas ficaram soltas porque assim devem ficar. Os riscos de um remendo existem e seria caso para perguntar: até quando? Foi praticamente impossível acreditar que estava livre. Só eu sei o que me doeu. Só eu. Eu… Não ultrapassei. Acho que nunca ultrapassarei porque não aceito tudo o que perdi. Estive tão perto e tudo se desmoronou. Desnecessariamente. Não era preciso que assim fosse. Eu nunca obriguei ninguém a ficar… A porta esteve sempre aberta. Sempre. Nunca existe um momento certo para sair mas a Verdade é libertadora. A Verdade, quando existe, conquista corações e razões. Bastava a verdade imediata e quiçá poderíamos hoje tomar café. Amanhã. Passar fins de semana juntos. Quem sabe ter uma amizade digna dos anos que nos conhecemos. Um carinho mútuo que nos ajudasse a ter uma vida com outras pessoas mas um cantinho só nosso onde recordações bonitas moram. E as nossas mãos? Essas poderiam ser o selo certo da amizade. O toque de gente que se cuida mutuamente… Mas não é nada disto. Neste convite para tomar café vejo apenas tudo voltar. Apenas mágoa. Não há perdão para quem tão mal trata quem tão bem lhe deseja… Talvez seja por isso que eu sou tão inconstante. Sou incapaz de perdoar quem me fere desnecessariamente. Não é preciso magoar mais que o necessário. Mentir é o começo de uma grande mágoa. Uma dor insolente e constante que nunca mais se apaga. Nem mesmo quando passam meses sem que os olhos se banhem na visão de quem nos marca… Longos meses… Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Meses que se transformarão em anos. E os anos num resto de vida e de memórias. Hoje recebi um estranho convite. Apenas estranho porque há promessas que foram feitas e jamais serão cumpridas… Coisas minhas!

 

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