Ensaio sobre a “grande depressão”

Ando tão deprimido que nem escrever me apetece. Não é que queira morrer ou matar. É apenas um estado de espírito que se espera passageiro. Estou sem esperança e um homem sem esperança é como a chegada da Primavera sem andorinhas… Faz-me falta acreditar que para breve tudo mudará. A minha situação profissional, pessoal e especialmente a situação social do meu país. Vejo hoje a deterioração das condições políticas e com ela toda a falência do país. Seria uma visão pessimista se o futuro não fosse o presente e o presságio a certeza que hoje se vive nas ruas. Ando entristecido por quase tudo. Cansado e desanimado. Tento acreditar que vem aí um vento de mudança mas na verdade eu sei que pouco irá mudar. A minha ida à Dinamarca colocou-me perante novos dilemas. O afecto e as pessoas interessam-me muito mais que o dinheiro. De pouco vale ter bolsas, empregos, milhares de publicações e dinheiro se faltarem as pessoas… Acho que nesta fase falta-me um grande projecto na vida pessoal para me afastar um pouco da vida social e em sociedade que todos tentam convencer-me a ter. Interessa-me ser um pouco egoísta. As pessoas merecem tudo o que vem aí. O FMI. Os cortes nas pensões. O desemprego do qual eu próprio sou vítima. Merecem tudo. Ano após ao, ultimato atrás de ultimato, a classe política vai desfilando a sua arrogância e superioridade sobre um povo pretensamente evoluído mas que na realidade traz o analfabetismo intelectual colado à pele. Esse mesmo analfabetismo ensinado nas escolas em facilidades dissimuladas e “novas oportunidades” que alimentam o ego e secam a vontade de singrar de quem tanto se esforça… Tudo tem sido preparado até ao último pormenor. Primeiro distribuem-se subsídios e benesses. Alimenta-se o sistema de inúteis e playboys endinheirados. Ascende-se ao poder quem por trela se passeia e a coluna dobra ao som de uma ordem… Tudo é preparado. O jogo segue o roteiro. E eu penso que vivo um pesadelo. A ditadura terminou a 25 de Abril de 1974. A ditadura assumida e passada para as crónicas da história, ficou afastada desde esse dia mas a grande questão que mais me tem atormentado é: até quando vamos tolerar esta nova ditadura que mancha o menos mau dos sistemas políticos? Até quando vão as pessoas alimentar este sistema que se sustenta com tantos custos para a gente humilde que vive do seu esforço e do seu trabalho? Até quando… Tudo me deprime porque me sinto impotente. Incapaz de fazer muito mais que denunciar, como um sussurro, nas mesas de café, no sofá cá em casa e aqui neste blog. Não precisamos de políticos. Isto só lá vai com gente. Com pessoas que se preocupem com as pessoas. Os números, são só números. As coisas são só coisas mas as pessoas jamais poderão ser só pessoas. São pais, mães, irmãos, tios, sobrinhos… São agricultores que trazem alimento para a nossa mesa. São motoristas que nos conduzem onde queremos. Gente é profissão. Gente é estado. Gente é tudo… Aguardo a chegada de um S. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, com a urgência de quem precisa de um antídoto antes que o veneno nos mate a todos. Nos leve a esperança e no seu lugar deixe um coração de Pedra. Eu já não acredito que serei capaz de mudar muito mas se mudar uma pessoa e se essa pessoa mudar outra e a cadeia se extender, então quem sabe se não sairá de algum canto escuro o S. Sebastião no seu cavalo branco. Quem sabe se a política não passa a ser o mal menor e o Mundo um sítio melhor…

 

Esta entrada foi publicada em Não categorizado. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s