Ensaio sobre o cansaço

Ando imensamente cansado. Com olheiras e dificuldades que vão para lá do físico. Acho que é um misto de muita coisa e de coisa nenhuma. Se por um lado a minha cabeça não pára nem um minuto, por outro há um enorme vazio que de vez em quando se instala. São ciclos que acompanham o tempo. Não o metereológico mas o Tempo que corre atrás do infinito e devora, à sua passagem, tudo o que é cor. Fica o branco. O branco dos cabelos e aquela luz que todos dizem nos separar do fim. Passo as noites a suar. A pensar em coisas que não aconteceram nem nunca irão acontecer. Viro o corpo em todas as direcções à procura da posição mais confortável ou apenas de um lugar onde me sinta bem. Os olhos, abertos na escuridão, procuram um sinal de algo ou de alguém. Mas o sinal não se ouve ou simplesmente não existe. Se som há eu não o escuto. Fico-me pelo bater do coração. Lento e compassado com o pulsar do sangue no punho. Fecho os olhos. Viro-me para o lado e ás vezes depois de uma hora a ler, uma hora a tentar adormecer e já com a madrugada em plena conquista, levanto-me. Ligo a televisão como um descargo de consciência. Quero ouvir vozes e sentir-me acompanhado. Passo um a um os vários canais e quanto maior a oferta, maior a indecisão. É sempre assim… Cubro-me e fico pelo sofá ou mesmo pelo chão a olhar para a televisão mas sem prestar atenção a um único diálogo. O pensamento está tão longe quanto os reactores nucleares do Japão embora o corpo se ressinta. Não na hora mas no dia seguinte quando o despertador exigir o começo de um novo dia. Levanto-me mais cansado do que quando me deito. O corpo não relaxa e a cabeça cansa-se. Não sei o que fazer para evitar este ciclo de preocupação sem motivo aparente. Não há chá, livro ou cansaço que vença a pouca disponibilidade para o sono. Tenho pena que a nossa vida tenha de ser gasta a dormir durante cerca de um terço da sua duração. Eu já devo muitos dias de sono á minha. Talvez seja por isso que de vez em quando me sinta em maré de completo azar. O descanso é sagrado. Tão sagrado quanto o fruto do trabalho e as relações de Amor e Amizade. Por ora estou impedido de o ter embora não saiba o porquê. Talvez seja por estar a chegar uma viagem de 9 dias… Vai-me custar um pouco ir se os assuntos pendentes não se resolverem mas lá terá de ser. Quem sabe se não me faz bem e não venho diferente? Há algumas coisas na minha vida que gostaria de mudar. Falta-me um pouco de força e um estímulo. Quem sabe se não vai ser esta a viagem que me despertará a vontade, hoje ténue, de emigrar de vez. Sinto-me, de um modo geral, maltratado. Não pelos graus académicos conquistados mas pelo trabalho que me consome e por alguma carência afectiva. Talvez seja do cansaço mas ás vezes também me apetece ser injusto. Talvez não seja eu mas o cansaço em si mesmo que fala quando de rompante viro a mesa e perco a cabeça sem pensar se existem consequências. Não sendo inconsequente, sou apenas a face mais visível de um cansaço que precisa esquecer-me… Eu sei que sou mais que um cansaço embora me questione se esse mesmo cansaço sabe disso…

 

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