Ensaio sobre a internet

Mais uns quantos dias sem internet. Não é que me faça uma falta exagerada mas é o meu meio de contacto com o mundo. Não é mais fácil que o olhar atento pela janela mas ajuda a refinar a atenção para os pormenores. Esta pequena dependência da internet fez-me voltar à “profecia” saramaguiana que um dia, não muito longe deste, se pagará para abrir qualquer página que se digite na rede. É óbvio que isso fará da internet, como de tantas outras coisas, um brinquedo de meninos ricos e as páginas já construídas perder-se-ão pela rede como um número que tende para o infinito… Tudo está construído assim. Há para aí muitos iluminados que, não tendo mais para fazer e para viver, se entretêm a descobrir maneiras simples de roubar dinheiro e limitar o livre pensamento. A nossa sociedade é uma corrida contra o tempo. O jogo do rato e do gato. Alguns, limitados pela aparente fragilidade e pequenez, têm de fugir do mais forte e carnívoro. Carnívoro no sentido literal. A máquina alimenta-se de miséria e de sofrimento. Todos somos pouco mais que carne. Sangue. Assim, os velhos tempos da inquisição voltam. Dissimulados pela aparente liberdade. Nada como dar… e tirar. Manter tudo e todos na linha. Embora não tenha por hábito sofrer por antecipação, esta falta de internet faz-me pensar que há por aí muitos gatos escondidos à espera do momento para atacar. Um dos maiores ataques à liberdade de expressão e à força do intelecto é a limitação no acesso à internet ao grande público. A força da adesão dos milhões de pessoas e as suas opiniões são sobrevalorizadas numa rede onde tudo fica limitado às palavras e a imagens escolhidas. Não é possível avaliar correctamente as pessoas pelo que se lê ou pelo que nos é dado a ver. O melhor é sempre ver a internet como uma conversa de café onde falha a plenitude visual e sobeja o calculismo. Nem todos serão assim. Não sou pessimista ao ponto de achar que na rede existe apenas falsidade ou gente que vive de calculadora da mão a somar vantagens. Pelo contrário. Diz-me quem ouves, lês, o que escreves e eu dir-te-ei quem és. E não me venham com falsas pistas porque é muito fácil perceber se falam verdade quando as vidas se cruzam e os gostos se tocam. Infelizmente já encontrei muito por aí quem se faça de intelectual e dado a gostos que não tem… Nada como uma boa dose de humildade para se assumir que pouco ou nada se sabe e que a intelectualidade não é um dom ou condenação. Simplesmente não existe! Há pessoas mais dadas à ciência. Outras à metafísica. Umas que se encontram na música. Há quem se reveja no cinema e em mil formas de arte desde as mais tradicionais às mais contemporâneas e excêntricas… Vive-se bem na internet e sinto falta quando dela me afasto mas não posso negar que isso abre uma infinidade de possibilidades contra a minha liberdade e condena-me a um possível isolamento ou a entrar numa roda-viva de capitalismo puro. Não vai acontecer para breve o fim da internet mas não muito longe estarão os dias em que o simples clicar de uma página nos vai obrigar a enriquecer os barões de brasão em branco e os líderes de países sem gente…

 

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