Ensaio sobre os saldos do Amor

Chegou a época dos saldos. Esses tão aguardados dias em que tudo fervilha nas montras e os preços caem sem se perder a qualidade. Há sempre 2 fases: uma depois do Natal e outra em pleno Verão… Vende-se roupa. Mobília. Electrodomésticos e um sem contar de coisas que não lembram a Deus nem ao Diabo. Até as padarias têm saldos. Entram-nos pelos olhos, pelos ouvidos e até pelos amigos. Todos querem efectuar uma boa compra… Chega a ser tão deprimente que nem eu consigo escapar á febre dos saldos. Fiz um orçamento para umas calças que precisava realmente comprar e ultrapassei-o por uma boa causa: umas calças, uma camisola e uma sweat. A quantia foi relativamente modesta embora não esqueça nunca das muitas camisolas, calças e sweats compradas aos ciganos lá da feira da minha terrinha. Esses anos não muito longe sempre me lembram que a distância que vai entre o que temos e o que podemos vir a ter é tão curta quanto a distância entre o que temos e o que podemos perder… Só há 6 anos descobri o que eram os saldos e nos últimos anos tenho percebido que eles chegam a todo o lado. Até ás relações humanas pretensamente mais densas. Assim, hoje lembrei-me que o Amor também entra em saldo exactamente no final do ano e sempre no Verão. Veja-se a quantidade de resoluções de Ano Novo que incluem uma nova paixão e/ou casamentos decididos à pressão. Sobre o Verão e a chegada de novos amores não adianta nem escrever uma linha. É um dado adquirido que só não arranja um novo amor no Verão QUEM NÂO QUER! Pois intriga-me uma coisa. Apesar da poetisa Sophia de Mello Breyner (a tia Sophia) dizer: “Sim, todo o amor é sagrado!”, eu questiono-me se ela algum dia percebeu existir esse outro amor a preço de saldo. Ah sim. Com preço. Por mais que queiramos esquecer, é inegável que (quase) tudo tem um preço nesta Vida. Umas vezes é-nos cobrado, outras perdoado. Certamente a tia Sophia, com a sua pureza de poetisa-maior, referia-se única e exclusivamente ás formas de amor verdadeiro. Gratuito. Amor de mãe, de irmãos, de amigos, de amantes… Amor em grau maior e a um preço que dinheiro algum pode comprar. Eu até gosto de saldos. Mas só para roupa. Única e exclusivamente para comprar coisas que realmente preciso. Um Amor a preço de saldo é como ter uma pulseira para equilibrar as energias e mais não sei o quê… Todos têm. É o mesmo que assumir que existe um padrão de qualidade a um preço inferior. Colocam-se etiquetas e os dois preços estão á vista. As pessoas acumulam-se em montras de vaidade e há alfinetes por todo o lado para dar uma melhor forma ao manequim. Obrigado mas não é para mim. Eu não estarei nunca nessa feira das vaidades e nessas montras enfeitadas com materiais baratos que não resistem à primeira tempestade. Peço desculpa por estar tão “fora de moda” mas este moço, este aqui que vos escreve, não se vende…

 

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