Ensaio sobre a defesa

Aproxima-se o Natal a uma velocidade absurda. Regresso a casa com a certeza de que este será, uma vez mais, um Natal diferente. Tudo muda de ano para ano e com tanta mudança eu sou incapaz de ficar indiferente. Aproxima-se também o fim de ano e será preciso fazer novo balanço sobre o ano que passou. Lembrar coisas boas, coisas más e coisas horríveis. Aproxima-se também o dia da defesa do meu doutoramento. Finalmente. Será menos um peso nas minhas costas. E que peso… Farei o balanço desses 4 anos na altura certa. E esta ainda não é a altura certa… Ontem estive em boa companhia com uma amiga que defendeu doutoramento recentemente. Pensei sobre a minha defesa. Não fiz planos para esse dia mas uma coisa eu sei: esse é o meu dia. Corra bem ou mal. Esse é um dia de realização pessoal e profissional. E nada nem ninguém vai conseguir abalar esses momentos. Não tenho nada planeado excepto desprezar todos os que, de maneira directa ou indirecta, tentaram impedir a minha chegada ali. Não quero gastar um único olhar em pessoas que pertencem a um passado que não posso esquecer ou apagar mas que pretendo deixar lá atrás bem arrumado numa prateleira poeirenta. Não vou gastar uma palavra que seja. Um aperto de mão ou menos ainda um beijo com gente que de tão pouco chega a ser praticamente nada. Espero estar bem. Natural e com a adrenalina que normalmente se apodera do meu corpo nos grandes momentos. Não preciso de estar tranquilo ou sem assistência. Não exijo presenças e/ou ausências. As provas são públicas e qualquer pessoa pode entrar na sala e sentar-se mas no fim, para o bem ou para o mal, não pretendo ter mais que os meus amuletos da sorte. Não darei falsos sorrisos. Não distribuirei os meus afectos gratuitamente. Só o desprezo… Não adianta pensar muito em dias que ainda estão longe e que podem nem sequer vir a acontecer mas para mim é muito importante deixar claro que sendo muito grato a quem me ajuda, sou muito frio com quem teve a oportunidade de se instalar no meu coração e permanecer como pedra fundamental do meu sucesso e/ou fracasso. Aplica-se para família, amigos, amantes e até para colegas que pairaram na minha vida… Os meus fracassos são meus. Só meus. Provavelmente são fruto da minha incapacidade e das minhas limitações. Já os sucessos… Os sucessos são partilhados e só acontecem pelo incentivo, pelas discussões, pela entrega e amizade incondicional que cuida o mais importante da nossa vida: o coração… O meu é muito maltratado ainda que por vezes ninguém o perceba muito bem, ele sangra com coisas minhas, com coisas dos outros e com coisas que nem chegam a ser coisas. Mas não adianta. Aprendi da pior maneira que nos nossos dias, nunca podemos dar o coração a ninguém porque em qualquer momento ele pode vir a fazer-nos falta. Fico na defesa. Hoje partilho mas não o entrego. Estou na defesa, como se disso dependesse a minha vida. Regresso ao estudo para a “outra” defesa tão menos importante. O doutoramento passará. Com maior ou pior dificuldade. Mas e a minha vida? Até quando ficará na expectiva e até quando estarei à defesa? Ficar na defesa hoje é a única maneira de sobreviver. Há muita maldade por aí. Há uma falência real do mundo que apanha e trucida tudo e todos os que não estão à defesa…

 

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