Ensaio sobre surdez sentimental

Nas palavras que não queremos ouvir, nos sons que nos chegam dissimulados pela morte anunciada de um assunto, estão mensagens importantes. Aceitamos não ouvir porque não queremos suportar a queda no abismo que nos faz repensar a vida genial que temos ou achamos que temos… O tempo passa e o abismo vai adensando a escuridão e a profundidade. E nós não ouvimos. O melhor é aguardar silenciosamente que os maus pressentimentos passem. Não queremos ouvir. Ficamos só com o que é bom. Guardamos lá longe, num lugar que achamos sagrado onde som nenhum chega. Não há grito suficientemente forte que nos faça suportar o que sabemos que se aproxima. Ignoramos os sinais. As palavras que são repetidas como um pedido de socorro. Afinal não é fácil ter coragem para de uma vez assumir os seus próprios defeitos e lamentações. As pessoas são intrinsecamente más. São mesquinhas, egoístas, sujas… mas têm consciência. Normalmente sabem que não agem bem. Vão dizendo aos pouquinhos, libertando a culpa em suaves prestações. O pormenor mórbido é que muitas vezes, libertam-se da culpa sem que as outras pessoas tomem conhecimento do que motivou tal sentimento. E a culpa não é só de quem não se confessa com a frontalidade que se exige. A surdez sentimental é um problema que chega a ter proporções epidemiológicas. As pessoas não se ouvem e não se querem fazer ouvir. Temos por aí gente que sussurra, cochicha a sua culpa em conversas informais e por outro lado, há gente que se recusa a ouvir o que afasta. Querem só o que aproxima ainda que seja uma aproximação aparente e física. O corpo está e o resto? A surdez motivada pelos sentimentos é uma parede de betão dificil de escalar mas com um pouco de esforço e dedicação, somos capazes de picar essa parede que nos separa da mais pura audição. Chega de filtrar o que ouvimos, o que queremos ouvir. A melhor maneira para sermos felizes é ter atenção a tudo o que nos rodeia com o zelo que a nossa Vida nos merece. O som que nos chega deve ser certo. Sem aplificações, cortes ou interferências. Eu quero o som distraído. Quero o estrondo perdido naquele jardim onde o telefone tocou e era uma prima que sei que não te ligaria por 1 minuto de conversa. Quero o irónico desejo solto na linguagem que não mais filtrarei. O facebook da tua perdição, o bater dos dedos no teclado enquanto escreves mensagens no chat e no telemóvel… Quero todos os sons para não mais perder pitada da culpa e da desculpa que tenta passar despercebida. Espera aí… Calma aí… Não fujas da conversa. Eu quero ouvir. Só não me venham com histórias e mais mistérios. O que me faz bem é esta insatisfação pela surdez sentimental. A mesma que nos faz recusar ouvir o que o meu amigo me grita enquanto se concentra em sussurros de dependência. Desperto desta surdez sentimental. Que caia o pano e fique a descoberto o palco onde se representa a tua peça de teatro. Eu quero é ouvir o ponto. A voz que te vai ditando o texto. Tenho esperança que um dia a plateia perceba que a peça era um remake. E eu, o espectador que saiu a meio e recusou ficar até ao fim… Que peça tão sem gosto.

 

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