Sem o medo a turvar o momento

Anteontem tive uma proprosta de emprego. Um emprego a sério. Essa proposta apresentou-se-me como irrecusável. Ainda sem saber os contornos do contrato, apenas sei que aos 28 anos poderia ficar com a vida profissional e monetária resolvida. Se o convite fosse para ficar no Porto, nem hesitaria mas infelizmente não é. Teria de mudar-me para Lisboa e recomeçar uma vida totalmente nova longe das pessoas que melhor me fazem… Nem tudo na vida se pode gerir pelo dinheiro. A nossa felicidade não tem valor e seja qual for a oferta que me façam tenho de ponderar entre a felicidade que a estabilidade económica traz, para mim e para quem gosta de mim, e o sacrifício pessoal que me vai ser pedido. Ir viver para Lisboa, longe de toda a gente é um fardo muito pesado. Talvez demasiado pesado para o meu pobre corpo… Não há assim tanto a ponderar mas há em mim um nervoso miudinho por esta oportunidade se apresentar como única e o sonho de uma estabilidade económica que anseio. Verei o que vai acontecer nos próximos dias e quais as condições reais da proposta apesar de ter quase decidida a minha resposta… Este foi mais um assunto que veio complicar a minha vida nesta altura. Fico confuso e com algum receio de desperdiçar o que não pode ser perdido. Enfim… Na quinta à noite fui fazer o meu Grande Papel nesta minha imitação da Vida. Levantei a cabeça, cerrei os punhos e abri os olhos. Engoli toda a insegurança e o nervosismo para confrontar a minha irmã. Suavemente, como convém. Ela precisava saber dos riscos que vai correr e da Grande Luta que se aproxima. Um linfoma maligno não é uma brincadeira nem uma doença de fácil tratamento. Este é o momento certo para se superar e encarar de frente o que aí se aproxima. Foi uma conversa séria como só Eu consigo ter na família. Prós e contras. Sem emoções a turbar, aparentemente, o meu discurso. Não roubei nem um pouco de esperança mas acrescentei uma boa dose de realidade. As coisas são como são e não adianta esconder os riscos. Terça é um dia longo que vai começar com a inclusão de um catéter e 4 longas horas de quimioterapia. E começa uma luta que se espera longa e bem sucedida mas para isso é preciso aguentar muito e ultrapassar muitos momentos que vão ser maus!  O meu papel foi o de preparar as pessoas para o que se aproxima. São tempos difíceis e é preciso ter coragem e não ir abaixo com a desculpa de que ninguém lhe disse como ia ser. Esse papel sólido de falar sobre tudo: desde a chance de perder a luta se não se esforçar (e se a doença não permitir…) até às mudanças físicas das próximas semanas, cabe-me a mim. Tenho esperança de que se vai resolver, e isso deixei bem claro, mas é preciso um esforço físico e psicológico da parte dela. É preciso que se concentre na sua própria recuperação e esqueça por uns tempos marido e filhas (mesmo sendo uma recém-nascida). Não há saída possível. Só atravessando o perigo sem cair. Se a queda for inevitável é preciso entender que quanto mais tempo se fica no chão mais difícil se torna levantar o corpo. A solução é cair, gatinhar e num pulo estar de novo de pé. Não pelo medo da derrota mas pelo cruel sentimento que pode ficar de desistência… Só eu sei o que me custa ter de, olhos nos olhos, reter os meus próprios medos para dizer: vais passar isto mas exige-se que te superes fisica e psicologicamente. Aguenta-te porque isto vai ser o inferno. Dizer isto seguro e com confiança. Sem o medo a turvar o momento…

 

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