Gasto os meus euros comigo… e com o meu umbigo

Aproximam-se o Natal e o fim de ano. Ano após ano vou
prometendo parar de gastar muito dinheiro com compras de Natal. A consciência
pesa-me por gastar muito mais do que devia nesta época mas a promessa fica
sempre pelo caminho. O dia 25 vai-se aproximando e, ano após ano, as compras
vão-se acumulando em embrulhos de papel e fitas brilhantes. Os autocolantes denunciam
o destinatário e o embrulho traz o carimbo da loja de marca onde os euros foram
depositados na confiança de que bem empregues a consciência aceita de bom grado
o voo da carteira para a caixa registadora. Claro que a maioria das vezes a
compra feita com prazer não encontra plena satisfação em quem a recebe. Mas o
que fazer? Desistir? Não… Ano após ano vai crescendo a preocupação de agradar sem
olhar a gastos. O Natal vai, inconscientemente, tomando um rumo que preferia
evitar: consumismo puro. Acumulam-se as prendas na árvore de Natal. Será isto
uma maneira de compensar os anos em que não havia uma única prenda como
lembrança de que alguém nos quer muito? Espero bem que não pois não pode haver nunca
prenda suficientemente cara ou boa capaz de comprovar todo o meu afecto por
algumas pessoas… Rendo-me ao consumismo e vou usando o cartão no pagamento das
prendas rigorosamente seleccionadas para que o cunho pessoal não se perca. Não há
lembranças e prendas ao acaso e os euros não são gastos só na intenção de
vê-los ir. Ano após ano vou lamentando o gasto exagerado mas não consigo evitar
mesmo sabendo que em seguida vou ter de dormir com a consciência pesada pelas
crianças que não vão receber nada, pelas pessoas que vão dormir ao relento e
pelas casas onde sobre a mesa falta tudo. Pesa-me que tudo isto se passe ao
lado da minha porta e ao invés de fazer alguma coisa apenas vou gastando os
meus euros comigo, com as pessoas que me rodeiam e com o meu umbigo. Preocupa-me
este meu pseudo-interesse social porque me soa a falso. Se ele existisse de
facto talvez fosse capaz de cumprir a minha promessa de não gastar muito num
destes natais. Mas por outro lado, seria eu capaz de penalizar as minhas
sobrinhas e família por um capricho de querer mudar o mundo sozinho? Não poderia
estar de consciência tranquila se as minhas sobrinhas se sentissem diminuídas
como eu me sentia nesses natais passados em que não havia prendas. Vou-me
tranquilizando. É inevitável comprar prendas de natal e é normal, comum e nada egoísta
gastar cada vez mais dinheiro com as pessoas de quem gostamos quando o temos… Tenho
a certeza de que não me diminui nada ser consumista quando tenho a clara noção
de que esse caminho devia ser evitado. O início da solução de um problema é o
reconhecimento de que ele existe. E esse não é um problema exclusivamente meu e
pergunto-me se haverá muita gente que o reconhece…

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Uma resposta a Gasto os meus euros comigo… e com o meu umbigo

  1. Rui diz:

    Ah como gostava de ter conseguido descrever semelhante preocupação que constantemente me assola, desta forma tão lúcida e brilhante… com a vantajosa diferença de que a real falta de abundantes recursos me ajuda a controlar muitos dos impulsos consumistas e a cingir-me rigorosamente ás crianças, em cujo olhar se reflecte o brilho das fitas natalícias nesta quadra que, indubitavelmente, deveria ser mais de reflecção humanitária do que de consumo… que se comece exactamente por reflectir!

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